
Sofrimento e contradições humanas observadas sem julgamento e com empatia na música e na meditação
Sofrimento, miséria e contradições humanas observadas sem julgamento e com empatia: na música e na meditação
Artigo de opinião e de partilha. Por Paulo Behar — 31 de Agosto de 2026
Hoje no fim do dia, com sentimento de tristeza, parei um pouco no quarto tentando lidar com um sofrimento antes de ir meditar. Encarar a verdade nua e crua dói. Então num primeiro momento, a usei a estratégia menos corajosa, a tentativa que só serve para alívio imediato: distrair a mente. Abri então o Spotify e passei os olhos por músicas que eu tinha adicionado à minha biblioteca. E, ao ver 'What It's Like', eu quis ouvir. Algo me chamou à atenção nessa música. E, também, eu gostava dela e e já fazia muito tempo que eu não a ouvia. E, então, pela primeira vez prestei atenção na letra e as estórias das pessoas sofredoras ressoaram fundo. Lembrei da primeira nobre verdade como ensinada pelo Buda. No Dhammacakkappavattana Sutta (“Colocando em Movimento a Roda do Dhamma”), registrado como Saṃyutta Nikāya 56.11, o Buda formula assim a Primeira Nobre Verdade:
“Agora, ó bhikkhus, esta é a Nobre Verdade do sofrimento: nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, doença é sofrimento, morte é sofrimento; união com o que é desagradável é sofrimento; separação do que é agradável é sofrimento; não obter o que se deseja é sofrimento; em resumo, os cinco agregados sujeitos ao apego são sofrimento.”
Que mistura é essa? O iluminado no século VI antes da era comum na Índia, música com elementos de blues rock, folk blues, rock alternativo e hip hop alternativo do século XX nos EUA, sofrimento do nascimento à morte, eu num momento de sofrimento?
Ainda bem que a existência do sofrimento (dukkha) é apenas a primeira nobre verdade. As demais nobres verdades são: a origem do sofrimento está no desejo/apego (samudaya), a cessação do sofrimento é possível (nirodha) e há um caminho que leva à cessação do sofrimento: Nobre Caminho Óctuplo.
Eu poderia dizer mais coisas sobre esse meu momento, mas serviria para quê? Vale mais à pena me direcionar para a música procurando aprender com a mensagem dela ao mesmo tempo em que curto a batida, o ritmo, o estilo. E quando observo o tom sério e firme da voz do cantor, vejo que isso complementa o clima da profundo e significativo da mensagem que ele expõe.
A letra traz à tona contradições e exemplos do lado miserável da vida humana. E, ao lembrar dos retiros de Meditação Vipassana, vem à cabeça as histórias da vida do Siddhāttha Gotama e busca dele pela libertação do sofrimento e das misérias humana como descrito acima, o que ele alcançou com maestria, pelo próprio esforço, chegando ao estado máximo de um Sammāsambuddha.
Ao ouvir a música atento à letra, lembrei também do que se ouve e se experimenta nos cursos: a sorte de ter aprendido a técnica de Vipassana que pouco a pouco vai desenraizando os condicionamentos profundos da mente que causam os sofrimentos. Isso é uma experiência maravilhosa. A conversão da miséria em liberdade, do sofrimento em alegria e paz verdadeiras. Harmonia, não aquela anestesia, tipo buscar alívio do sofrimento no Spotify. Nada contra ouvir músicas, mas não achando que os problemas se resolvem com distrações. Tem momentos de música e tem momentos de trabalho duro. De novo, me sinto agradecido ao amigo que uma vez me recomendou fazer um Curso de 10 dias de Vipassana.
Estes dois links abaixo apontam para a versão original de 1998, do álbum Whitey Ford Sings the Blues.
- Spotify:
https://open.spotify.com/track/0nbuX7OZkEY5agMkpr98wSopen.spotify - Apple Music:
https://music.apple.com/br/song/what-its-like/1605186584music.apple
Contexto da música “What It’s Like” (Everlast)
“What It’s Like” é uma canção de Everlast (nome artístico de Erik Francis Schrody, nascido em 18 de agosto de 1969), lançada em julho de 1998 como o primeiro single do álbum Whitey Ford Sings the Blues*. A música se tornou o maior sucesso solo de Everlast, alcançando o topo das paradas de rock alternativo e mainstream rock nos EUA e chegando ao nº 13 na Billboard Hot 100.[en.wikipedia][en.wikipedia][genius]
Autor e contexto biográfico
Everlast havia sido membro do grupo de hip hop House of Pain nos anos 1990, mas após o fim do grupo e uma série de dificuldades pessoais — incluindo problemas de saúde (ele sofreu um infarto em 1996) e uma crise existencial —, ele se reinventou como artista solo. O álbum Whitey Ford Sings the Blues (1998) marca essa transformação: uma fusão de rap, rock, blues e folk, com letras mais introspectivas e narrativas.[en.wikipedia][en.wikipedia][scaruffi]
O próprio Everlast descreveu o álbum como uma espécie de “requerimento barroco” influenciado por sua obsessão com a morte após sobreviver ao infarto. A música reflete essa maturidade: em vez de celebrar o sucesso ou a ostentação típicos do rap da época, ela humaniza pessoas marginalizadas e convida o ouvinte à empatia.[scaruffi]
Época e local de criação
A música foi gravada em Nova York, no estúdio SD50, e lançada pela gravadora Tommy Boy Records. O final dos anos 1990 nos EUA foi marcado por:[genius]
- Crescimento do rap rock e do nu metal (Korn, Limp Bizkit, Linkin Park emergiriam pouco depois);
- Discussões intensas sobre pobreza, aborto, violência urbana e desigualdade;
- Uma cultura musical em transição, onde o hip hop se misturava com o rock alternativo.
Nesse contexto, “What It’s Like” se destacou por sua abordagem narrativa e moral, mais próxima do blues tradicional e da música de protesto do que do rap comercial da época.[en.wikipedia][roblogy.wordpress]
Comparação com a Meditação Vipassana (ensinada por S.N. Goenka)
Como explicado na página inicial, no item, 'As seções do blog', o Buda ressignificou o rito que o jovem estava fazendo, quando ele o encontrou. A idéia aqui é acrescentar mais um sentido a esta música. Para tanto, a seguir é apresentada uma análise dos pontos em comum e diferenças entre a mensagem da contida na letra e a prática de Vipassana conforme ensinada por S. N. Goenka.
Pontos em comum
Tema “What It’s Like” (Everlast) e Vipassana (Goenka)

Diferenças fundamentais

Síntese
- Convergência ética: tanto a música quanto Vipassana convidam a uma postura não julgadora e mais compassiva diante do sofrimento humano.[genius][roblogy.wordpress]
- Divergência metodológica: Everlast usa a arte narrativa para gerar empatia; Vipassana consiste da observação direta da experiência para transformar a própria mente.
- Profundidade: a música fica no nível da conscientização moral; Vipassana vai além, propondo uma libertação existencial através da prática sistemática.
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Apêndice
Letra completa em Inglês e tradução linha a linha para o Português
Abaixo está a letra oficial (versão do álbum) com tradução para o português, linha por linha.[genius][letras.mus][vagalume.com]
Verse 1
We've all seen the man at the liquor store beggin' for your change
Todos já vimos o homem na loja de bebidas implorando por suas moedas
The hair on his face is dirty, dreadlocked and full of mange
O cabelo em seu rosto é sujo, com dreadlocks e cheio de sarna
He ask the man for what he could spare with shame in his eyes
Ele pede ao homem o que ele poderia doar, com vergonha em seus olhos
"Get a job, you f*cking slob" is all he replies
“Arrume um emprego, seu vagabundo do c*ralho” é tudo que ele responde
Chorus 1
God forbid you ever had to walk a mile in his shoes
Deus não permita que você algum dia tenha que caminhar uma milha com os sapatos dele
'Cause then you really might know what it's like to sing the blues
Porque então você realmente poderia saber como é cantar o blues
Then you really might know what it's like (what it's like)
Então você realmente poderia saber como é (como é)
(repetido 4×)
Verse 2
Mary got pregnant from a kid named Tom who said he was in love
Mary engravidou de um garoto chamado Tom que disse que estava apaixonado
He said: "Don't worry about a thing, baby doll, I'm the man you've been dreamin' of"
Ele disse: “Não se preocupe com nada, bonequinha, eu sou o homem com quem você sonha”
But three months later he say he won't date her or return her calls
Mas três meses depois ele diz que não vai namorá-la nem retornar suas chamadas
And she swear, "Goddamn, If I find that man I'm cuttin' off his balls!"
E ela jura: “P*rra, se eu encontrar aquele cara, vou cortar as bolas dele!”
And then she heads for the clinic and she gets some static walkin' through the door
E então ela vai para a clínica e leva muita hostilidade ao atravessar a porta
They call her a killer, and they call her a sinner, and they call her a whore!
Eles a chamam de assassina, e a chamam de pecadora, e a chamam de p*ta!
Chorus 2
God forbid you ever had to walk a mile in her shoes
Deus não permita que você algum dia tenha que caminhar uma milha com os sapatos dela
'Cause then you really might know what it's like to have to choose
Porque então você realmente poderia saber como é ter que escolher
Then you really might know what it's like (what it's like)
Então você realmente poderia saber como é (como é)
(repetido 4×)
Bridge
I've seen a rich man beg
Eu já vi um homem rico implorar
I've seen a good man sin
Eu já vi um homem bom pecar
I've seen a tough man cry
Eu já vi um homem durão chorar
I've seen a loser win
Eu já vi um perdedor ganhar
And a sad man grin
E um homem triste sorrir
I heard an honest man lie
Eu ouvi um homem honesto mentir
I've seen the good side of bad and the down side of up
Eu já vi o lado bom do mau e o lado de baixo do da partecima
And everything between
E tudo entre
I licked the silver spoon, drank from the golden cup
Eu lambi a colher de prata, bebi da taça de ouro
Smoked the finest green
Fumei a melhor erva
I stroked the baddest dimes
Eu fiquei com as gatas mais lindas
At least a couple of times
Pelo menos algumas vezes
Before I broke their heart
Antes de partir o coração delas
You know where it ends
Você sabe onde isso termina
Yo, it usually depends
Cara, geralmente depende
On where you start
De onde você começa
Verse 3
I knew this kid named Max, he used to get fat stacks out on the corner with drugs
Eu conhecia esse garoto chamado Max, ele costumava ganhar pilhas de dinheiro na esquina com drogas
He liked to hang out late, liked to get shit faced and keep pace with thugs
Ele gostava de ficar até tarde, gostava de ficar bêbado e andar com criminosos
Until late one night there was a big gunfight and Max lost his head
Até que uma noite tarde houve uma grande briga de tiros e Max perdeu a cabeça
He pulled out his chrome .45, talked some shit and wound up dead
Ele sacou sua .45 cromada, falou besteira e acabou morto
Now his wife and his kids are caught in the midst of all of his pain
Agora sua esposa e seus filhos estão presos no meio de toda essa dor
You know it comes that way, at least that's what they say when you play the game
Você sabe que acontece assim, pelo menos é isso que dizem quando você joga o jogo
Chorus 3
God forbid you ever had to wake up to hear the news
Deus não permita que você algum dia tenha que acordar e ouvir aa notícias
'Cause then you really might know what it's like to have to lose
Porque então você realmente poderia saber como é ter que perder
Then you really might know what it's like (what it's like)
Então você realmente poderia saber como é (como é)
To have to lose...
Ter que perder...
(repetido)































