
A mesma coragem
Por Mônica Cristina Böhme — 30 de Julho de 2026
No meu primeiro Curso de Vipassana (10 dias), um dos maiores insights que tive foi sobre a coragem. Uma coragem nua e crua.
Lembro que por volta do terceiro ou quarto dia comecei a perceber que algumas pessoas já não apareciam mais na sala de meditação. Não estavam na sala na meditação da manhã, nem no café, nem no almoço. Também não voltavam à tarde ou à noite para a sala de meditação. Simplesmente não estavam mais ali. A almofada, espaço individual de sentar para meditar, estava vazio.
Minha primeira reação foi julgá-las. Pensei: "Não conseguiram ficar. Devem ter saído frustradas consigo mesmas." Hoje vejo o quanto esse pensamento estava carregado dos meus próprios juízos de valores.
Pouco tempo depois, a ideia de ir embora começou a crescer dentro de mim. Aos poucos, deixou de ser apenas um pensamento passageiro e virou uma possibilidade muito concreta. Passei a imaginar como seria levantar, arrumar minhas coisas e partir.
Foi então que senti algo muito forte no corpo: a respiração acelerou, vieram calor, arrepios e, curiosamente, uma sensação de alívio. Percebi que seria necessária uma enorme coragem para tomar a decisão de sair. Percebi que seria necessária uma enorme coragem para tomar a decisão de ficar. Percebi que as pessoas que decidiram sair foram corajosas. Percebi que as pessoas que decidiram ficar foram corajosas.

E, naquele instante, surgiu o insight: a coragem para sair era exatamente a mesma coragem necessária para ficar. Não eram coragens diferentes. Vinham do mesmo lugar.
Essa percepção me trouxe uma compreensão muito viva da equanimidade. Em vez de agir imediatamente sobre aquele impulso, permaneci observando. Dei tempo para que a natureza das coisas se revelasse. Dei tempo ao Dhamma. A vontade de ir embora, a vontade de ficar, como tudo o mais, também eram impermanentes, anicca.
Naquele retiro, não permaneci porque fui mais forte ou mais disciplinada ou unicamente pelo prática da Forte Determinação. Permaneci porque, pela primeira vez, consegui experimentar que não precisava responder imediatamente ao que surgia dentro de mim. Não reagir. Bastava observar, com paciência e atenção, até que, ao atravessar aquela experiência, eu pudesse reconhecer, com mais lucidez, o caminho a seguir naquele momento.
Metta








