
Oração Mental dos Freis Capuchinhos, Meditação Vipassana e Relatos de Religiosos
Por Paulo Behar — 10 de Agosto de 2026
Oração Mental dos freis capuchinho e Vipassana
Além de ter aproveitado a leitura dessa obra muito rica, não tive como não pesquisar se existe algo em comum entre a Oração Mental dos Freis Capuchinhos e Meditação Vipassana. Caro amigo frei José, tenho muita gratidão por tantos anos de amizade. E obrigado pelo livro. Não posso perder a oportunidade para mais uma vez agradecer imensamente os Freis Capuchinhos do RS, especialmente os de Porto Alegre, que me acolheram como um verdadeiro irmão, quando eu estava vivendo a década dos meus 20 anos.
Neste artigo, apresento três aspectos: o que pude compreender sobre o livro, uma busca de semelhanças e, por último, me pareceram muito inspiradores o relatos de religiosos católicos que participaram de um ou mais Cursos de Meditação Vipassana como ensinada por S.N. Goenka.
1. O livro
Oração Mental: um jeito capuchinho de rezar é uma obra publicada em Porto Alegre, em 2021, pela ESTEF — Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana — em parceria com a Conferência dos Capuchinhos do Brasil. O volume tem aproximadamente 200 páginas e reúne textos de caráter histórico, espiritual e prático, não sendo apenas um manual devocional de um único autor. [youtube](https://www.youtube.com/watch?v=bY6D7-Kisko)
O livro nasceu de um esforço de recuperar e atualizar uma prática central da tradição dos Frades Menores Capuchinhos: a oração mental como “mestra espiritual dos frades”. A proposta é mostrar que essa forma de oração não pertence exclusivamente aos religiosos; ela também pode ser praticada por leigos interessados na espiritualidade franciscana. [YouTube](https://www.youtube.com/watch?v=bY6D7-Kisko)
Pela semelhança com Vipassana, destaco o texto da aba interna da capa posterior:
“Os processos formativos que não favorecem o silêncio e a interioridade correm o risco de promover uma espiritualidade superficial. … Os frutos da contemplação são para serem doados, sem esquecer que o fim último de todo ato contemplativo, em perspectiva franciscana, é sempre a compaixão.”
Assista o video "Lançamento do Livro: ORAÇÃO MENTAL um jeito capuchinho de rezar” pelo link https://www.youtube.com/live/bY6D7-Kisko?si=Y5biUfw1VOtbBO3C
Conteúdo principal
A obra parece organizar-se em torno de três eixos:
- Fundamentação capuchinha: a oração mental é apresentada dentro da história da reforma capuchinha, marcada pelo retorno à simplicidade do Evangelho, à pobreza, à vida eremítica e à proximidade com os pobres.
- Reflexão espiritual: o leitor é conduzido à compreensão da oração como relação afetiva com Deus, mais do que como produção de pensamentos ou recitação de fórmulas.
- Texto clássico traduzido: o livro inclui a tradução portuguesa do tratado de Martial d’Étampes, mestre de noviços capuchinho francês, escrito no século XVII — identificado na apresentação como de 1637 —, intitulado _Tratado Fácil para Aprender a Fazer Oração Mental_. [youtube](https://www.youtube.com/watch?v=bY6D7-Kisko)
A tradução foi realizada por Amanda Furtado Sampaio, a partir do francês. Um dos méritos da edição é tornar acessível ao leitor brasileiro uma fonte antiga da tradição capuchinha que, até então, não estava disponível em português. [youtube](https://www.youtube.com/watch?v=bY6D7-Kisko)
A ideia central
A oração mental capuchinha começa pelo desejo de rezar. Não exige formação teológica sofisticada, grande capacidade de concentração ou o domínio de um método complexo. A pessoa simplesmente se dispõe a estar diante de Deus e permite que esse encontro transforme sua mente, seus afetos e sua maneira de agir. [youtube](https://www.youtube.com/watch?v=bY6D7-Kisko)
O livro insiste em uma distinção importante: o silêncio não significa ausência de conteúdo, mas disponibilidade para escutar. A oração não é “falar muito com Deus”; é permitir que a Palavra, a presença de Cristo e a realidade humana — especialmente o sofrimento dos pobres — alcancem profundamente o coração.
Nesse sentido, a contemplação capuchinha não é fuga do mundo. Seu movimento pode ser descrito assim: do silêncio à escuta; da solidão à solidariedade; da contemplação à compaixão. [capuchinhos.org](https://www.capuchinhos.org.br/blog/a-oracao-mental-capuchinha-mestre-dos-frades)
O método em três etapas
O método tradicional apresentado no livro é simples:
1. Preparar
A preparação consiste em escolher um tempo e um lugar, recolher-se e tomar consciência da presença de Deus. O essencial é a disposição interior: “quero estar aqui”, sem a preocupação de realizar imediatamente algo extraordinário. Pode-se iniciar com uma passagem breve do Evangelho, sobretudo um episódio em que Cristo aparece pobre, humilde, compassivo ou crucificado.
2. Contemplar
Depois da leitura, a pessoa permanece diante de Deus. Ela olha, considera, escuta e deixa-se afetar pelo mistério contemplado. A atividade principal não é analisar o texto, produzir raciocínios ou multiplicar pedidos, mas permanecer receptiva. O esforço humano consiste sobretudo em abrir-se, permanecer e não tentar controlar a experiência. [capuchinhos.org](https://www.capuchinhos.org.br/blog/oracao-mental-foi-tema-de-estudo-das-etapas-formativas)
3. Concluir
A oração deve irradiar-se para a vida. Na conclusão, o orante identifica uma luz recebida e formula um propósito concreto: escutar melhor alguém, agir com mais paciência, aproximar-se de uma pessoa marginalizada ou responder a uma situação com misericórdia. Assim, o fruto da oração não é apenas sentir paz durante o momento contemplativo, mas tentar desenvolver as qualidades do Cristo contemplado. [capuchinhos.org](https://www.capuchinhos.org.br/blog/a-oracao-mental-capuchinha-mestre-dos-frades)
Relação com Francisco e Clara
O livro situa a oração mental no coração da experiência de Francisco de Assis. O encontro com o crucificado de São Damião, a proximidade com os leprosos, a pobreza e a itinerância não aparecem como temas separados da oração: são acontecimentos nos quais Francisco aprendeu a reconhecer a presença e o chamado de Deus. Também há uma aproximação importante com Santa Clara de Assis, especialmente com seu convite a **olhar, considerar e contemplar** Cristo como um espelho. O sentido não é simplesmente imaginar Jesus, mas deixar que a contemplação do Cristo transforme progressivamente a identidade e a conduta do orante. [youtube](https://www.youtube.com/watch?v=bY6D7-Kisko)
O que diferencia essa prática
Centro: O homem pobre, humilde e crucificado
Atitude: Desejo, silêncio, receptividade e afeto
Método: Preparar, contemplar e concluir
Papel da mente: Iluminar-se pela Palavra, sem excesso de análise
Papel dos afetos: Deixar-se tocar e transformar
Fruto esperado: Compaixão, fraternidade e serviço
Relação com o mundo: proximidade com os necessitados
Ela pode dialogar com práticas contemplativas de outras tradições, mas não é simplesmente uma técnica neutra de atenção plena. Seu horizonte é explicitamente cristão e relacional: trata-se de permanecer diante de Deus, contemplar Cristo e deixar que essa relação produza conversão e compaixão.
Como ler o livro
Uma boa sequência seria:
1. Ler primeiro a parte que apresenta a história e a identidade capuchinha.
2. Em seguida, estudar a explicação contemporânea sobre a oração mental.
3. Ler lentamente o tratado de Martial d’Étampes, sem tentar absorver tudo de uma vez.
4. Praticar cada capítulo ou orientação durante alguns dias.
5. Registrar não apenas experiências interiores, mas também mudanças concretas na relação com as pessoas.
O livro é especialmente interessante porque combina história da espiritualidade, fonte primária traduzida e orientação prática. Seu ponto mais profundo é que a oração não termina no recolhimento: contemplar o Cristo crucificado deveria tornar o orante mais disponível aos pobres, aos doentes, aos excluídos e à criação. [YouTube](https://www.youtube.com/watch?v=bY6D7-Kisko)

2. Busca de semelhanças entre Oração Mental e Meditação Vipassana
E sim, há semelhanças importantes no nível da prática e da transformação ética, embora as duas tradições partam de visões diferentes sobre Deus, pessoa e realidade. A oração mental capuchinha é uma contemplação cristã centrada em Cristo; Vipassana como ensinada por S. N. Goenka é uma prática de observação direta da mente e das sensações corporais, orientada à compreensão da impermanência e à purificação mental. [capuchinhos.org](https://www.capuchinhos.org.br/blog/oracao-mental-foi-tema-de-estudo-das-etapas-formativas)
1. Silêncio e interiorização
Ambas valorizam o recolhimento, a redução dos estímulos externos e a atenção ao que acontece interiormente. Na oração mental, a pessoa está toda presente em Deus, deixando a mente e o coração disponíveis; na Meditação Vipassana, observa-se diretamente a experiência da respiração e das sensações dentro da moldura do corpo. [capuchinhos.org](https://www.capuchinhos.org.br/blog/oracao-mental-foi-tema-de-estudo-das-etapas-formativas)
2. Treinamento da atenção
Nenhuma das duas práticas é apenas uma reflexão intelectual. Ambas exigem retornar repetidamente ao objeto da prática:
- na oração mental, retorna-se à presença de Deus, à Palavra ou à contemplação de Cristo;
- em Vipassana, retorna-se à respiração e, depois, às sensações do corpo, observando-as com equanimidade.
Em ambos os casos, a mente dispersa não é motivo para desistir; a dispersão torna-se uma ocasião para recomeçar.
3. Observação das reações interiores
A prática capuchinha procura revelar apegos, resistências, vaidades e fechamentos diante de Deus. Vipassana observa desejo, aversão, medo, raiva e outras reações como processos mentais e corporais condicionados. Em ambas, o praticante passa a perceber melhor como reage — e essa percepção abre a possibilidade de transformação. [dhamma](https://www.dhamma.org/pt/goenka.shtml)
4. Transformação ética
As duas práticas vinculam contemplação ou meditação e conduta. Para os capuchinhos, contemplar Cristo pobre, humilde e crucificado deve tornar a pessoa mais compassiva, simples e disponível aos necessitados. Em Vipassana, a purificação mental se expressa em ações mais saudáveis, não violência, amor benevolente e compaixão. [dhamma](https://www.dhamma.org/pt/goenka.shtml)
5. Não buscar apenas uma experiência agradável
Embora a paz possa surgir em ambas, ela não é o único critério de êxito. A oração mental busca conformar a vida à vontade de Deus; Vipassana procura desenvolver visão clara e equanimidade diante de experiências agradáveis, desagradáveis e neutras. Portanto, desconforto, tédio ou distração também podem fazer parte do caminho.
Diferenças fundamentais
A própria apresentação de Goenka descreve Vipassana como uma técnica de auto-observação e dar-se conta da verdade, considerada não sectária, na qual se observa a interação entre mente e corpo e a produção de reações como aversão ou apego. Já a tradição capuchinha afirma explicitamente que a contemplação se dirige ao “Cristo pobre, humilde e crucificado” e que o orante deixa Deus falar nele. [capuchinhos.org](https://www.capuchinhos.org.br/blog/oracao-mental-foi-tema-de-estudo-das-etapas-formativas)

Um ponto de contato profundo
Talvez a maior convergência esteja na descentralização do ego reativo.
Na linguagem capuchinha, a pessoa precisa despojar-se de si para deixar Deus agir e aprender a viver segundo o Evangelho. Na linguagem de Vipassana, observa-se a reação de apego e aversão sem alimentá-la, até compreender sua impermanência. As linguagens são diferentes, mas ambas convidam a não obedecer automaticamente a todo pensamento, emoção ou impulso.
Síntese
A semelhança mais forte está no silêncio atento, na observação da vida interior, na redução das reações automáticas e no cultivo da compaixão. A diferença decisiva está no horizonte: a oração mental capuchinha é um encontro amoroso com Deus em Cristo, enquanto Vipassana é uma investigação meditativa da experiência corporal e mental segundo o Dhamma. [dhamma](https://www.dhamma.org/pt/goenka.shtml)
3. Relatos de religiosos católicos
Esse item apresenta relatos muito ricos e diretos de padres, religiosas e seminaristas católicos que fizeram cursos de Vipassana como ensinada por S. N. Goenka, sobretudo na Índia. Os testemunhos mais consistentes vêm de instituições de formação cristã indianas e de um arquivo ligado à tradição Vipassana; portanto, são relatos de participantes, não estudos independentes nem uma posição oficial da Igreja Católica.
1. Padre Daniel J. O’Hanlon, SJ
O jesuíta irlandês Daniel J. O’Hanlon fez um curso de dez dias com S. N. Goenka em dezembro de 1973, em Varanasi, durante uma temporada de estudos na Índia. O curso envolvia cerca de doze horas diárias de prática, centrada na observação das sensações corporais sem apego nem aversão. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf) Ele afirmou que a experiência não lhe pareceu incompatível com sua vida anterior de oração e meditação cristã. Mais tarde, ao ler _A Nuvem do Não-Saber_ e São João da Cruz, reconheceu paralelos entre a atenção silenciosa da Vipassana e formas cristãs de contemplação sem palavras. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf)
O’Hanlon destacou duas descobertas:
- era possível avançar para uma oração além das palavras e conceitos sem começar necessariamente por palavras ou conceitos;
- a compaixão, o amor, a paciência e a empatia podiam emergir da atenção silenciosa, sem serem inicialmente produzidos por esforço deliberado.
Ele relatou também um efeito prático: depois do retiro, reagiu com humor e cordialidade a uma situação que provavelmente teria provocado irritação. Para ele, a meditação havia produzido uma mudança observável na maneira de responder às circunstâncias. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf)
2. Padre Peter Lourdes
O padre Peter Lourdes, sacerdote católico e psicólogo ligado ao National Vocation Service Centre, em Pune, participou de um curso de dez dias em fevereiro de 1986, em Igatpuri, acompanhado por outros padres, irmãos religiosos e religiosas. Ele continuou praticando com um grupo de sacerdotes e religiosas sob sua direção espiritual. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf). Seu relato é particularmente interessante porque ele não escondeu a tensão entre as tradições. Disse que a teoria da Vipassana não se ajustava inteiramente ao seu universo teológico católico, mas considerava que a experiência meditativa o aproximava dos místicos cristãos. Para ele, Vipassana oferecia um método simples e claro para uma dimensão contemplativa que, em sua avaliação, muitas vezes havia ficado obscurecida pelo predomínio da teologia e das formas institucionais de religião. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf). A formulação dele é forte: viu Vipassana como uma maneira de alcançar objetivos da espiritualidade mística católica, embora reconhecesse que não se tratava de uma equivalência doutrinal entre Cristianismo e Budismo.
3. Padre Desmond D’Souza
Desmond D’Souza, sacerdote redentorista e experiente orientador de retiros, descreveu a Vipassana como uma espécie de “segundo noviciado”. A diferença, para ele, era que a disciplina do noviciado religioso costuma ser mais externa e institucional, enquanto no retiro a disciplina — especialmente o silêncio — precisava ser interiorizada. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf). Ele considerou decisiva a observação de como gostos e aversões se transformam em desejo e repulsa. Também descreveu Vipassana como uma passagem de um sistema teórico e dedutivo para uma aprendizagem experiencial: durante o curso, o participante não se apoia em livros, Bíblia, rosário, missa ou oração, mas observa diretamente o corpo e a mente. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf). Depois do retiro, D’Souza afirmou ter adquirido uma nova compreensão do “Cristo cósmico”, da espiritualidade da criação e de certos temas da teologia contemporânea. Esse é um exemplo de integração interpretativa cristã posterior; não significa que esses conceitos façam parte da técnica ensinada por Goenka.
4. Padre Anthony de Mello, SJ
Anthony de Mello, jesuíta indiano e conhecido diretor de retiros, fez um retiro com Goenka e incorporou elementos de mindfulness budista na sua obra _Sadhana: Um Caminho para Deus_. O testemunho sobre essa influência foi registrado pelo jesuíta Michael Barnes, que conviveu com de Mello e relata que a prática orientadora de _Sadhana_ veio, em parte, da Vipassana Theravada. [thinkingfaith](https://www.thinkingfaith.org/articles/anthony-de-mello-sj). De Mello utilizava atenção aos sons, à respiração e às sensações corporais como preparação para a oração. No entanto, ele não apresentava essas práticas como um substituto do Cristianismo: seu objetivo era tornar o praticante mais sensível à presença de Cristo e à ação de Deus na experiência cotidiana. [thinkingfaith](https://www.thinkingfaith.org/articles/anthony-de-mello-sj). Essa formulação aproxima-se bastante de uma possível ponte com a oração mental capuchinha: a atenção corporal e o silêncio funcionariam como preparação; a oração cristã acrescentaria a escuta da Palavra, a contemplação de Cristo e a resposta amorosa a Deus.
5. Padre Peter D’Souza, sacerdote e professor de Vipassana
Outro sacerdote com o mesmo sobrenome, Peter D’Souza, da Missionary Society of St. Francis Xavier, fez seu primeiro curso em setembro de 1990. Descreveu o início como difícil, mas afirmou que a experiência terminou de maneira profundamente positiva. Posteriormente, tornou-se professor assistente de Vipassana e relata que a prática passou a fazer parte da formação de seminaristas e noviços em sua instituição desde 1996. [insightmyanmar](https://insightmyanmar.org/burmadhammablog/2023/7/26/an-interview-with-vipassana-teacher-father-peter-dsouza)
Ele identifica três elementos comuns entre Vipassana e muitas tradições religiosas:
- moralidade;
- concentração;
- sabedoria.
Ao mesmo tempo, reconhece que existem diferenças teóricas importantes entre as visões judaico-cristã e as originárias de Buda, particularmente em temas como salvação, renascimento e compreensão da pessoa. Sua posição é pragmática: não se deve negar as diferenças, mas também não é necessário concluir que toda experiência meditativa ensinada por Buda seja incompatível com a vida cristã. [insightmyanmar](https://insightmyanmar.org/burmadhammablog/2023/7/26/an-interview-with-vipassana-teacher-father-peter-dsouza)
6. Relatos de religiosas e seminaristas
O mesmo conjunto de testemunhos reúne experiências de religiosas e formandos:
- Irmã Joyce descreveu o retiro como uma experiência intensa de purificação e paz interior, além de um contato mais profundo com a dimensão mística de si mesma.
- Padre Emanuel, diretor espiritual de um seminário, relacionou a experiência da impermanência com textos do Antigo Testamento e com Santa Teresa de Ávila.
- Irmã Rosalyn relatou que conseguiu permanecer mais no presente e que, apesar de não haver missa, rosário ou oração formal durante o curso, experimentou algo que interpretou cristianamente como “o reino de Deus dentro”.
- Padre Sekhar associou a observação das sensações à imagem evangélica de “tomar a cruz” e descreveu o desenvolvimento de metta — bondade amorosa — como um momento profundamente tocante.
- Irmã Zacharias afirmou que sua concentração na oração e na missa melhorou depois do curso, porque a divagação e a reatividade mental haviam diminuído.
- Padre Arul, carmelita, relatou que passou a lidar com os seminaristas de modo mais equânime. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf)
Esses testemunhos mostram que alguns participantes interpretaram Vipassana como uma disciplina psicológica e contemplativa; outros a integraram diretamente à sua linguagem cristã de graça, cruz, Reino de Deus e purificação.
Um padrão comum nos relatos
Os religiosos geralmente relatam quatro efeitos:
1. Maior percepção da reatividade: reconhecer desejo, irritação, medo e aversão antes de agir.
2. Mais estabilidade interior: menor dispersão e maior capacidade de permanecer no presente.
3. Aprofundamento da oração cristã: especialmente concentração, silêncio e sensibilidade à presença de Deus.
4. Melhoria no serviço pastoral: mais paciência, equanimidade e compaixão no relacionamento com seminaristas, pacientes, alunos ou comunidades.
Mas há também uma ressalva essencial: durante o curso de Goenka, o praticante não faz oração cristã, não lê a Bíblia, não reza o rosário e não cultiva explicitamente a relação com Deus. O método formal trabalha com respiração, sensações corporais, impermanência e equanimidade. D’Souza descreve justamente esse despojamento de referências religiosas como parte do impacto do retiro. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf)
Avaliação equilibrada entre as duas práticas
Assim, conclui-se que Meditação Vipassana e Oração Mental dos Frades Menores Capuchinhos são coisas bastante diferentes, mas que há um cerne comum: moralidade, concentração e sabedoria. Pode-se destacar os seguintes elementos:
- a prática pode funcionar como preparação contemplativa para alguns cristãos;
- alguns religiosos percebem frutos compatíveis com sua vocação: silêncio, atenção, compaixão e liberdade interior;
- a experiência também pode gerar tensões com a teologia cristã, sobretudo quando conceitos dos ensinamentos do Buda são interpretados literalmente;
- a integração posterior depende da formação, da maturidade espiritual e da capacidade de distinguir método, experiência e interpretação teológica.
No contexto da oração mental capuchinha, a integração mais prudente talvez seja considerar a Vipassana uma disciplina de observação e equanimidade que pode iluminar o conhecimento das próprias reações, mas não substituir o núcleo cristão da oração: a relação com Deus, a contemplação de Cristo e a transformação em serviço. E, como tudo no mundo, a busca contínua da verdade e do amadurecimento, pode ir mudando a vida para melhor ao longo do tempo.































