O início da minha caminhada

Por
Paulo Behar
—
01 de agosto de 2026
Tempo de leitura:
8
minutos

Em meio à conversa, surgiu o assunto de se libertar de padrões mentais

Lá por abril de 2012, numa conversa com um amigo, ele me recomendou fazer um Curso de Meditação Vipassana e, para me inscrever, eu deveria acessar o site dhamma.org. A recomendação veio logo após eu falar que estava procurando a minha liberdade interior: a minha libertação. Contei que eu estava com o texto da parashá Behar na cabeça. Essa porção fala sobre a LIBERTAÇÃO DOS ESCRAVOS E DA TERRA. Ela está contida em Levítico 25:1–26:2 na Torá. Behar (בהר), meu sobrenome, significa 'na montanha', em hebraico. Este livro da Torá, em hebraico é denominado Vayikrá (וַיִּקְרָא), que significa 'E chamou'. Nesse texto, Levítico 25, é estabelecido que, no ano santo, deveria ser proclamada liberdade na terra: os israelitas que se venderam por necessidade deveriam voltar livres à sua família, e a terra voltaria ao dono original. O texto enfatiza que a escravidão não era permanente,  havia direito de resgate e de retorno no jubileu. E eu, no momento, estava me sentido preso nos meus padrões mentais e estava querendo a minha liberdade de volta. Mas, no momento do convite, me pareceu uma recomendação bem fora da minha realidade e de qualquer plano do tipo. Ora, dez dias em retiro de silêncio?!!!! Nem pensar! É demais! Percebi a boa intenção na recomendação, mas na minha percepção da época, foi como algo muito fora de contexto! Tipo algo fora da realidade. Mais tarde, entendi que sim, havia algo fora da realidade: eu.

O que fazer no período de férias a vencer?

Mas, num certo dia, recebi recado de um dos meus locais de trabalho que o meu período de férias venceriam até o final de agosto e que eu tinha que marcar as férias. Aí que me lembrei da recomendação do amigo e pensei: vou aproveitar pra fazer esse curso já que não tenho nada mais mesmo pra fazer nesse período. Esposa e filhos não estariam de férias no mesmo momento. Então, me inscrevi, fui, aproveitei e até hoje não consigo expressar tamanho benefício que recebi. Aprendi uma técnica que pode levar à liberdade que eu procurava, numa escala que eu não era capaz de imaginar. Na volta, falei ao meu amigo que sou e vou ser sempre muito grato a ele por ter me indicado esse curso. Muito obrigado, Mauro!

Começando a caminhada

Em 1º de agosto de 2012, local, ambiente, estrutura, logística e serviço doado pelos professores e pelos servidores proporcionaram a mim, e a todo o grupo que estava sentando, um tempo de experiência totalmente além das minhas expectativas. Eu não imaginava que teria tanto esforço para enfrentar nem quanto benefício eu iria receber. E, dentre outros marcos, o som do sino marcou o início, os intervalos e o fim do meu primeiro Curso de Vipassana de 10 dias.

No primeiro dia, após 1 hora de meditação o professor Tim disse com o seu sotaque norte-americano: 'Vocês tem 5 minutos para descansar." Eu não acreditei, achei que ele estava brincando porque ele era bem-humorado e, no momento pensei: convenhamos, descansar só 5 minutos é tão pouco tempo depois de 1 hora sentado, o professor deve estar brincando! Mas, passados os 5 minutos, alguém bateu o sino e as pessoas começaram a voltar pra sala de meditação. Então, percebi que sim, era verdade, tivemos somente 5 minutos para descansar. E assim foi indo, hora após hora, dia após dia.

Os dez dias em silêncio e treinamento intensivo, com trabalho muito duro foram uma oportunidade rara. A rotina intensa de 10 horas de meditação por dia, guiada pelos dois professores assistentes dentro do clima do Dhamma e de Metta do Goenkaji pelos áudios é difícil de descrever. E mesmo que conseguisse descrever bem, não expressaria a realidade que vivemos lá. Idem para a dedicação e compaixão dos professores e servidores: impressionante! Anteriormente eu já havia lido, assistido filmes de pessoas, de comunidades elevadas, altruístas fazendo o bem sem esperar nada em troca. Eu já tinha imaginado e sonhado com algo próximo a isso. Eu achava que isso só existia em filmes, sonhos, livros canônicos sagrados. Mas pude experimentar esse dito Dhamma. Apesar de ser profissional da saúde, foi nesse primeiro curso que eu pude perceber a minha mente e a minha falda de controle sobre ela. Até então eu conhecia somente o conceito de mente, mas nunca tinha realmente experimentado ela. Ter tido a oportunidade de participar daquele curso tão extraordinário num clima saudável, onde as pessoas estavam trabalhando sem esperar nada em troca, somente desejando o bem, foi algo que demorei para acreditar que estava realmente acontecendo. Eu tinha 50 anos e acreditava que eu conhecia muita coisa. Vi o quanto eu estava enganado. Recebi treinamento para voltar mais. para moralidade/ética, para iniciar concentração correta e para começar a desenvolver sabedoria como experimentada por mim mesmo. No final do curso, mais um presente: uma técnica para desenvolver compaixão. Até antes do curso, eu achava que amor, compaixão, boa vontade eram dons que se recebia, ou que não se recebia. Nunca tinha pensado que é possível desenvolver essas qualidade saudáveis, dignas e nobre através de técnicas. O curso foi maravilhoso!

Sala de Meditação de Dhamma Santi, 23 de Agosto de 2015

Começando a entender pela prática, não pela teoria

Depois de uns dias, comecei a entender o que estava acontecendo. Comecei perceber benefícios da técnica. Me senti sendo apresentado ao melhor tesouro do mundo, podendo utilizar dele para o meu próprio bem e para o bem dos outros.  Se eu conseguisse seguir esse modo de viver durante o curso e fora dele, com moralidade, concentração correta e a sabedoria pessoal que brota dessa base e da técnica de Vipassana, eu estaria entrando num caminho nobre como nunca tinha experimentado antes na vida.

Nesse blog, vou voltar a esse assunto, pois o texto acima não foi capaz de explicar o tamanho do bem que é esse tesouro. De lá pra cá, Vipassana é algo que mantenho na cabeça por todos os dias desses 14 anos. Não houve como esquecer um só dia!

Sou profunda e extremamente agradecido por este primeiro curso e todos os demais que tenho feito. Meu interior vem mudando, parte do meu padrão mental vem mudando. Tenho um trabalho gigante ainda pela frente, mas sou outro desde 01 de Agosto de 2012. E quando se experimenta algo saudável, benéfico, racional, surge a vontade de partilhar essas experiências desejando que outros possam provar esse caminho extraordinário. Outros posts do blog irão abordar os benefícios 'aqui e agora' desse tesouro, caminho e modo de vida.

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