
Entrevista com Tim Lanning, Professor de Vipassana, por Neel no Podcast The Room of Lives
Entrevista com Tim Lanning, Professor de Vipassana, por Neel no Podcast The Room of Lives
Tradução autorizada por Abhranil Das (Neel) em 15 de Outubro de 2026 da entrevista que fez a Tim Lanning em 31 de Maio de 2022 no seu Podcast The Room of Lives. Este artigo de tradução, aqui neste blog aparece como Parte 2 porque foi feita uma contextualização do meu contato com o Podcast e com o Neel no artigo anterior, chamado Parte 1 - Introdução do blog à entrevista com Tim Lanning por Neel no The Room of Lives.
Link para a entrevista: https://open.spotify.com/episode/1ih8UKTadYVDTXLi7s8YIB?si=cMOgh73ORS-VP6MmI4NWQw
Para quem fala Inglês, recomendo fortemente ouvir a entrevista original no aplicativo de músicas/podcasts da sua preferência.
A seguir a tradução integral da entrevista.
Professor de Meditação Vipassana
Episídio 34 · Podcast The Room of Lives, de Neel (Abhranil Das).
31 de maio de 2022. Duração da entrevista: 2 horas e 12 minutos
Resumo
Entrevista com Tim Lanning, Professor Assistente de Vipassana como ensinada por S. N. Goenka. Ele relata ter conhecido a técnica no Japão, aos 33 anos, e descreve uma transformação pessoal profunda: passou a entender o sofrimento como ligado aos próprios condicionamentos e reações.
A prática é apresentada como observação sistemática das sensações corporais com equanimidade — sem apego às agradáveis nem aversão às desagradáveis. Para Tim, o objetivo não é buscar experiências especiais, mas enfraquecer os sankharas (condicionamentos mentais), reduzindo apego e aversão.
Ele defende prática diária e retiros, alerta contra o uso de intoxicantes e vê o intelecto excessivamente analítico como possível obstáculo. Também narra como a prática o ajudou a interromper ciclos de raiva e a reconstruir a relação com os pais.
Introdução
Bem-vindos ao The Room of Lives. Eu sou o apresentador, Neel. No episódio anterior, descrevi as experiências do meu primeiro curso de Vipassana de 10 dias. Neste episódio, converso com Tim Lanning, que foi o professor assistente no meu segundo curso de meditação silenciosa de dez dias, que fiz recentemente, mais uma vez numa região afastada do Texas.
Esses cursos foram organizados por um professor birmanês chamado S. N. Goenka, que faleceu há vários anos. O objetivo desses centros de Vipassana espalhados pelo mundo é continuar ensinando os cursos exatamente da forma como ele os ensinava. Por isso, à noite, durante o curso, assistíamos a vídeos gravados dos mesmos discursos que Goenka costumava fazer; ele continua, portanto, sendo considerado o professor principal do curso.
Os dois professores assistentes, porém, estão presentes para supervisionar e facilitar o curso, entrevistar os alunos e responder às perguntas deles em algumas sessões breves. Tim, no entanto, diz que é apenas o “DJ do Dhamma”, cuja função é apertar o play nos vídeos de Goenka.
No último dia do curso, conheci Tim e o convidei para participar do meu podcast. Ele aceitou. Mas depois aconteceram vários incidentes que me fizeram pensar que a entrevista não aconteceria. No fim, ela aconteceu, e aqui está a conversa.
Começamos falando das circunstâncias que o levaram à Vipassana no Japão, muitos anos atrás, e do que ele diria hoje ao seu eu mais jovem. Depois, aprofundamos perguntas que eu tinha sobre a prática da meditação Vipassana, seus efeitos e a cosmologia budista ao seu redor. Tim descreve sua prática habitual, então me questiona sobre a minha própria prática de meditação e meu uso de substâncias, e explica por que meu intelecto pode se tornar um obstáculo à meditação. Em seguida, conta como sua raiva em relação à família o levou à Vipassana e como, mais tarde, a prática ajudou a curar a dinâmica familiar. Terminamos discutindo as leis do cosmos e o clima espiritual mágico da Índia.
Como Tim encontrou a Vipassana
Neel: Sim. Certo. Tenho um pouco de curiosidade sobre a sua trajetória geral, sua história de vida, sua criação. Você poderia me contar um pouco sobre você e, sim, uma breve história da sua vida? E, particularmente, como uma pessoa ocidental como você chegou a um caminho espiritual oriental como a Vipassana?
Tim: Sim, essa foi sua primeira pergunta. Morei no Japão durante 18 anos. E fiquei fascinado... Morei lá por tanto tempo porque era muito interessante para mim viver fora de um país não ocidental, não cristão.
Eu tinha um objetivo. Fui lá pela primeira vez quando estava na Marinha. E, de todos os países que nosso navio visitou, o Japão foi o que mais me fascinou. Então fiquei decidido a voltar. Entrei num programa de intercâmbio pela Universidade do Missouri. Sou originalmente de lá. Eu participava de um programa chamado Year in Japan, numa das universidades de Tóquio. E aquele ano se transformou em 18 anos.
E foi... Acho que depois do meu décimo ano no Japão, saiu uma matéria no jornal em língua inglesa chamado The Japan Times. Uma jornalista havia feito um curso, e duas coisas na matéria chamaram minha atenção. Primeiro, o título me interessou: “Uma maratona de meditação perto de Kyoto”. Pensei: “Ah, maratona de meditação, parece interessante”. Li a matéria. Nela, ela dizia que aquilo era uma dádiva para alguém que estava entre empregos ou relacionamentos. Era o meu caso.
A outra coisa que me intrigou foi ela dizer que os cursos não eram cobrados. Claro que eu não conseguia aceitar isso sem ressalvas; tinha minhas dúvidas. Porque nada é de graça. Como podia ser? Nenhuma cobrança pelos cursos. Quando fui fazer meu primeiro curso ali perto de Kyoto, fiquei esperando o truque, sabe, achando que tinha de haver alguma coisa por trás. Mas não havia. Todas aquelas pessoas estavam me servindo sem esperar nada em troca, e acabei fazendo isso pelos últimos 30 anos.
Neel: E, a partir daquele primeiro momento, quais foram, sabe, suas experiências e seus passos seguintes até acabar se tornando professor assistente de um curso de dez dias?
Tim: Antes de tudo, não tenha nenhuma ilusão sobre os professores assistentes. Na verdade, esse nome é inadequado. Nenhum de nós é professor nem está qualificado para ensinar. Quando me perguntam: “Você vai ensinar o próximo curso?”, respondo: “Não, mas vou ser o DJ do Dhamma”. Vou conduzir o curso. Vou colocar as gravações para tocar.
Às vezes fazemos reuniões entre nós. E há uma espécie de piada, ou uma expressão, de que gosto muito: as pessoas recebem o Dhamma apesar dos professores assistentes. Nossa principal missão, nossa principal tarefa, é sair do caminho da transmissão do Dhamma, porque nenhum de nós, como eu disse, está qualificado para ensinar.
Seria mais preciso dizer que somos assistentes do professor. Estamos ali para oferecer um pouco mais de orientação presencial ou responder a alguma pergunta pessoal do aluno, por exemplo, se ele estiver enfrentando algum problema específico, algo relacionado à sua dificuldade particular. Goenkaji é o professor. Basicamente, faço a mesma coisa que você e todos os demais fazem.
A transformação pela prática
Neel: Sim, e lembro que, durante nosso retiro de dez dias, tivemos uma conversa breve e você disse algo que me marcou. Disse que, para você, o efeito da prática de Vipassana... a transformação que viveu foi como a diferença entre a noite e o dia. Como se houvesse um Tim antes e um Tim depois. Poderia falar um pouco mais sobre isso?
Tim: Goenkaji e o Buda dizem que podemos ter dois nascimentos na vida. Um é o nascimento do ventre de nossas mães; o outro é quando entramos em contato com o Dhamma e com o caminho da iluminação.
Muito rapidamente percebi que este é o caminho para sair de todo o sofrimento, de toda a infelicidade. Isso ficou muito claro. E eu estava tão feliz, porque tinha 33 anos e, até então, sofria como resultado do meu próprio comportamento. Não vivia uma vida boa e saudável, não seguia sīla. Existe uma saída para todo o sofrimento, toda a infelicidade, e sou eu o responsável tanto pelo meu sofrimento quanto pela minha libertação. Cem por cento.
Neel: Sim. Sinto que a infelicidade ou o sofrimento podem assumir formas ou sabores diferentes. Pode haver, por exemplo, sofrimento devido ao ciúme, à insegurança, à raiva, ao sentimento de não ter valor, à arrogância; todo tipo de sabor.
Tim: Depressão.
Neel: Sim. Então você diria que a Vipassana é um caminho capaz de lidar com todos esses diferentes tipos de sofrimento?
Tim: Com tudo. De A a Z, até o sofrimento da morte.
Neel: Sim. E é isso que a Vipassana nos ensina. Se alguém realmente vivencia essa coisa chamada ani... Ani, qual é mesmo a palavra? Ani? Anitcha?
Tim: Sim, isso. Quando começamos a vivenciar, no nível físico concreto, o surgimento e o desaparecimento dessas sensações, estamos nos preparando para a nossa própria morte.
Sensações e equanimidade
Neel: Sim. Então, mais para o fim do retiro, quando estamos mais aprofundados na própria prática de Vipassana, ouvimos falar um pouco das sensações corporais que procuramos ao percorrer o corpo com a atenção. Ouvimos que, para alguns meditadores avançados, os bloqueios já não são tão presentes, de modo que, numa única respiração, talvez seja possível sentir as sensações e percorrer o corpo inteiro. Depois ouvi também que, em algum momento, isso pode se desvincular da respiração e não precisa necessariamente estar sincronizado com ela. E uma parte da minha mente pensou: “Certo, qual é exatamente o propósito dessa coisa tão específica que vocês estão tentando fazer, de percorrer o corpo inteiro com essas sensações durante uma respiração? Qual é a importância disso?”
Tim: Não é isso que estamos tentando fazer. Não é esse o objetivo. Não tenha nenhuma... Quero dizer, ele falava disso, chamava de bhaṅga, sabe, a dissolução total do corpo, bhaṅga, mas não dê importância demais a isso. O que mais precisamos valorizar é, primeiro, desenvolver a sensibilidade da mente para perceber as sensações que acontecem no corpo inteiro o tempo todo, 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano, desde o nascimento até a morte.
Enquanto tivermos este corpo material, haverá sensações. E, se continuarmos nos esforçando, sobretudo nos cursos, onde há menos distrações, para sentir essas sensações presentes — que estão acontecendo agora mesmo, enquanto conversamos —, vamos percebê-las. Mas estamos voltados para fora: você olha para mim, eu olho para você, estamos conversando, pensando no que dizemos, você está ouvindo.
Mas, quando você entra em meditação, para de pensar em outras coisas e simplesmente começa a mover, ou tentar mover, sua atenção pelo corpo, depois de passar três dias e meio desenvolvendo essa sensibilidade. Quanto mais praticamos, mais sensível se torna nossa mente... e mais fácil fica sentir essas sensações que estão sempre presentes. Essa é uma metade da técnica.
A outra metade da técnica é... Bem, vou perguntar a você: o que acha que é?
Neel: Sim, sinto que existem... Para mim, uma metade é o esforço para aumentar a consciência e a sensibilidade. E a outra metade parece ser o cultivo de uma aceitação sem julgamentos do que quer que esteja surgindo.
Tim: Acertou. Equanimidade. Isso é equanimidade. Essa é a definição de equanimidade: não ter preferência nem preconceito em relação ao que estou vivenciando neste exato momento, mental ou fisicamente.
Sensibilidade dentro e fora do retiro
Neel: Você diria que a continuidade dessa prática o tornou, sabe, mais sensível a todos os aspectos da vida, incluindo experiências de vida, relações interpessoais e coisas assim?
Tim: Com certeza. E, quanto mais fundo vamos, mais podemos experimentar e mais sensibilidade podemos desenvolver. Vi aquela pergunta que você escreveu. Como era? Era sobre perceber melhor a personalidade, as intenções ou as emoções das outras pessoas; por exemplo, perceber se estão mentindo ou não.
Neel: Não sei do que você está falando. Sim, sim, era... Você pode... Eu queria ler de novo. Você se torna extremamente sensível às suas sensações, a tudo na vida? E consegue reagir de maneira apropriada em todas as situações? Era essa?
Tim: Sim, essa e a seguinte. Desenvolvemos mais sensibilidade para tudo, especialmente para o que acontece dentro de nós. Assim, quando encontramos essas coisas fora de nós, podemos percebê-las. Mas, se nos tornarmos bons meditadores — bons no sentido de não reagir a essas sensações, ao que acontece ao nosso redor e também ao modo como isso nos afeta internamente —, podemos simplesmente observar, aceitar e não reagir.
É por isso que, às vezes, nos cursos, algumas pessoas querem usar uma máscara para cobrir os olhos, colocar tampões nos ouvidos ou jogar o xale ou cobertor sobre a cabeça enquanto meditam. Não deveriam fazer isso. Precisamos conversar com elas e dizer que é melhor não fazerem isso.
A razão é que estamos tentando desenvolver a sensibilidade da mente, além da disciplina mental necessária para observar essas sensações que surgem e desaparecem constantemente sem bloquear todo o resto. Isto não é privação sensorial. Se fosse esse o objetivo, cada pessoa poderia se sentar em seu próprio tanque de privação sensorial, com o equilíbrio perfeito de pH, temperatura agradável, escuridão completa e nenhum som.
Queremos conseguir levar para casa, para a vida cotidiana, aquilo que aprendemos e praticamos no curso. Se não conseguirmos fazer isso, então não há propósito em participar desses retiros, sejam de dez dias ou de qualquer outra duração.
Neel: Sim, e você percebeu — esta é a parte restante da pergunta — que as intenções e a personalidade das pessoas, assim como os sinais não verbais, ficam mais transparentes? É possível chegar a um estágio em que você consegue realmente ler a mente das pessoas ou saber o que elas estão pensando? Entendo que isso soa um pouco como um truque, mas continuo curioso, porque um amigo meu, meditador há muito tempo, contou que foi a um desses retiros e disse que conseguia, de certa forma, sentir a energia emocional da pessoa que meditava ao lado dele.
Tim: Tudo é vibração, e você pode sentir vibrações ao nosso redor, sejam as vibrações de determinados ambientes em que estou, sejam as vibrações de alguém que está perto de mim.
Dificuldades e purificação
Neel: Sim, sim. Então, você acha que existem pessoas específicas, ou talvez certas condições psicológicas ou situações em que a meditação — ou a meditação Vipassana — possa de fato ser prejudicial?
Tim: Não. Não, observar essas sensações e treinar a mente para não reagir a elas nunca pode nos prejudicar de maneira alguma. Mas o que pode acontecer, e já vi acontecer várias vezes nos cursos, é que este é um processo de purificação. E, se alguém não estiver trabalhando corretamente, pode causar algum dano a si mesmo.
Esta técnica é muito poderosa. Estamos trabalhando com a verdade. Começamos com Anapana, que é a observação da respiração, passando três dias e meio concentrados nesta pequena área logo abaixo das narinas e acima do lábio superior. Mesmo quando começamos a fazer isso, a operação da mente se inicia automaticamente, porque essa verdade é muito poderosa: observar a verdade relativa à minha mente, ao meu corpo e à conexão com o que acontece nessa pequena área.
Isso automaticamente começa a mexer em coisas profundamente enraizadas dentro de nós. Tenho certeza de que você vivenciou isso nos dois... Você já fez dois cursos, certo?
Neel: Sim, sim.
Tim: Ao observar essa verdade sem reagir a ela, começamos automaticamente a trazer à tona as impurezas que todos nós temos. Elas começam a borbulhar até a superfície. Depende da qualidade e da quantidade dessas impurezas que tenho. Goenka as chama de sankharas, o que significa simplesmente condicionamentos da mente.
Quando vêm à superfície, dependendo dessas impurezas, elas se manifestam como alguma sensação forte aqui ou ali, ou simultaneamente como alguma emoção intensa, algum complexo profundamente arraigado que está surgindo. A Vipassana faz o mesmo, mas de modo ainda mais rápido ou eficaz, porque estamos trabalhando com o corpo inteiro.
Nosso corpo guarda... A mente e o corpo não podem ser separados. Essa é apenas uma distinção semântica que nós, seres humanos, desenvolvemos. Não é correta, porque não há separação entre mente e corpo. Eles trabalham juntos o tempo todo.
Por isso, ao praticar esta técnica, essas impurezas profundamente enraizadas, esses sankharas, vão surgir. E, às vezes, podem surgir com tanta intensidade que provocam algum desequilíbrio em mim. Isso pode se manifestar como insônia ou como um período em que minha mente fica desequilibrada.
Não deveria ser motivo de grande preocupação, porque sempre digo às pessoas que Vipassana não é algo que fazem conosco. É algo que nós fazemos e sobre o qual mantemos o controle: trabalhamos no nosso próprio ritmo. Não sabemos disso, mas há uma espécie de regulador dentro da maioria de nós.
Decidimos quanto dessa sujeira, quanto dessas impurezas e dessa lama queremos permitir que venha à tona de cada vez. É por isso que, quando durante uma daquelas meditações em grupo de uma hora alguma coisa começa a surgir com tanta força e dificuldade que você sente que precisa mudar de postura, então mude de postura. Não é o fim do mundo. E, quando faz isso, é como se dissesse: “Ah, certo, estou bem; não vou explodir nem pegar fogo”.
Desejo, aversão e dor
Neel: Sim, sim. Então, ao imaginar esse tipo de Santo Graal no fim do processo — talvez seja só imaginação —, um estado mental livre de desejo e aversão, isso parece fantástico demais. Parece que estamos presos ao desejo e à aversão desde o momento em que nascemos, mesmo quando bebês. É possível?
Tim: O que nos trouxe a este corpo, a esta vida, foi nosso desejo e nossa aversão. Se não tivéssemos nada disso, não estaríamos aqui.
Neel: Sim. Você sente que, por meio da prática, uma pessoa pode alcançar, durante sua vida, um estado em que esteja realmente livre do desejo e da aversão?
Tim: Absolutamente. Sem dúvida alguma. É como você me perguntar se, ao colocar pilhas na minha boneca dançante — umas pilhas que comprei no Walmart —, é possível que as pilhas acabem e ela pare de dançar.
Neel: Ah, entendi, entendi.
Tim: Se eliminarmos uma quantidade suficiente dessas impurezas, desses sankharas, vamos parar de dançar. Vamos interromper esse desejo e essa aversão.
Neel: Sim. Uma situação em que isso é especialmente difícil para mim imaginar: suponha que você esteja passando por uma dor física extrema. É possível não sentir aversão a ela?
Tim: Absolutamente.
Neel: Ah, você já experimentou isso?
Tim: Sim, por meio da Vipassana. Se você continuar meditando e trabalhando corretamente, talvez seja difícil imaginar isso depois de ter participado de apenas dois cursos de dez dias, mas já fiz mais cursos do que consigo lembrar, e também mais cursos longos do que consigo lembrar. Nos cursos longos, podemos aprofundar muito mais a prática.
É possível chegar a um ponto em que nenhuma sensação vivenciada consiga dominar ou subjugar você.
Neel: Sim. O que é a dor?
Tim: Dor é... Sabe, depois do quarto dia ele deixa de usar a palavra “dor”. Você já não o ouve mencionar essa palavra, porque ninguém quer dor na vida. Todos já temos dor suficiente... em nossas vidas. A palavra “dor” tem uma conotação negativa.
Ele fala muito de sensações, mas chama aquilo que normalmente chamaríamos de sensações dolorosas de sensações intensas, grosseiras, solidificadas. Se você continuar atravessando essas tempestades — esse é o termo técnico para ter muitas sensações grosseiras, intensas e solidificadas — e permanecer sentado com equanimidade, há uma parte da mente que grita: “Meu Deus, odeio isto. É uma tortura. Que diabos estou fazendo? Estou me matando”.
Mas há outra parte da mente, a parte consciente, que diz: “Vamos lá, cara, não seja frouxo. É só uma sensação. Olhe, todos estão sentados como estátuas do Buda. Ele vive dizendo que isto é... isto é anicca. Vai passar. Calma, cara. Continue observando. Examine isso como um médico; não fique tão apegado a este pedaço de carne — digo, à minha carne”. Essa parte fica cada vez mais forte.
E quanto mais você desenvolve isso — isso é equanimidade —, mais essa chama, que queima tão intensamente, começa a perder o poder sobre você assim que para de reagir. Você atravessa essas tempestades uma após a outra, e elas perdem a força. Por fim, começa a perceber que não passam de vibrações.
Relacionamentos e expectativas
Neel: Sim, sim. Algo que experimentei, mesmo me considerando um praticante muito iniciante, amador, é que a Vipassana realmente transformou minha perspectiva sobre muitas coisas na vida. Por exemplo, sinto que já não me agarro tanto a pensamentos sobre o que acontecerá comigo no futuro: “Para onde vai minha carreira?”. Quero dizer, muito desse apego foi se soltando.
Mesmo nos relacionamentos interpessoais ou amorosos, percebo que já não me agarro à outra pessoa nem a uma sensação específica, o que para mim é ótimo. Mas sinto que muitas outras pessoas não estão na mesma sintonia e acham bastante estranha a maneira como encaro o mundo, os relacionamentos, a mim mesmo, a vida e as outras pessoas. Elas não entendem bem o que está acontecendo nem se isso pode ser real ou saudável. Você já sentiu esse tipo de estranhamento, essa sensação de não estar na mesma sintonia ou alguma dificuldade nas relações interpessoais porque a Vipassana mudou a natureza do seu desejo e da sua aversão?
Tim: Não. Tudo só fica cada vez mais claro e melhor. Não sei se você se lembra do discurso do sétimo dia. Acho que é nele que Goenkaji afirma que, se eu for realmente honesto comigo mesmo e examinar minha mente com sinceridade, descubro que não amo ninguém além de mim mesmo.
Algumas pessoas têm dificuldade para aceitar isso. Mas, se você for realmente honesto consigo mesmo, ama os outros somente enquanto eles satisfazem seus sonhos, suas expectativas e suas ambições para eles. No momento em que deixam de fazer isso, você começa a culpá-los: “Qual é o problema? Você não está realizando meus sonhos, minhas metas ou minhas expectativas”. A quem estou amando?
Quando percebemos e aceitamos isso, fica claro: o que quero dessa pessoa? Como reajo quando não consigo o que quero na relação com ela? Também fica mais claro o que essa pessoa quer de mim. E posso escolher se quero ou não dar isso a ela, fazer aquilo por ela ou seja lá o que for.
Quanto mais pureza desenvolvemos, menos isso importa, porque nos libertamos das expectativas em relação aos outros. Com expectativas, sempre haverá decepção.
Quando alguém deixa de agir como eu quero — meu marido ou, sei lá, meu parceiro deixa de fazer o que espero —, antes eu talvez começasse a gritar: “Por que você não faz isso? Por que diz aquilo?”, e assim por diante. É tudo sobre mim.
Mas, à medida que desenvolvemos essa nova pureza, a compaixão necessariamente surge junto. Talvez você pare e pense: “Por que ele está gritando comigo? Por que ela está gritando comigo? O que realmente está incomodando essa pessoa — minha mãe, meu pai, meu amor, quem quer que seja? Qual é o problema dela? Como posso ajudá-la? E será que sou capaz de ajudar?”.
Vida, sofrimento e morte
Neel: Como temos cerca de 15 minutos restantes, talvez, para aproveitar o tempo, eu faça algumas das perguntas que são mais prioritárias para mim. Uma delas, em especial, é a seguinte: sinto que a meditação transformou completamente minha vida para melhor. Mas, como disse no e-mail, uma das premissas que aprendemos — dentro, digamos, da filosofia budista — é que há um fluxo contínuo de vida, no qual o desejo e a aversão, momento a momento, dão origem ao conteúdo do próximo eu. Então, no fim da vida, todos os sankharas se cristalizam para dar nascimento à próxima manifestação da mente. O objetivo da Vipassana é alcançar um estado em que o fluxo de desejo e aversão cesse, libertando-nos, assim, desse ciclo de vida e morte.
E, sabe, uma das premissas é que a vida é sofrimento. Ao ouvir isso, pensei, falando com toda honestidade, que tenho dificuldade com essa ideia. Sinto que, na maior parte do tempo, gosto da vida. Se tivesse a opção, gostaria de continuar vivendo mais vidas. Devo abandonar a meditação?
Tim: Não, não, não, não. É claro que não. Mas há três coisas que sempre teremos de enfrentar quando assumimos uma vida — quero dizer, quando passamos a existir aqui. Quais são as três grandes coisas? Velhice, doença e morte.
Neel: Sim.
Tim: E se você já... Você tem 22 anos agora, certo?
Neel: Tenho 32.
Tim: Ah, desculpe. Você é jovem e saudável, mas, se já esteve perto de alguém — uma avó, por exemplo — ou trabalhou num hospital e conviveu com pessoas passando por qualquer uma dessas três coisas, ou mesmo pelas três ao mesmo tempo, fica muito claro: elas não estão se divertindo. Estão sofrendo.
Então, aos 32 anos, talvez seja difícil imaginar. Até agora sua vida tem sido boa. Não sei se alguma pessoa querida morreu ou se você teve um animal de estimação que morreu. Você consegue observar o sofrimento, mas chegará um momento, eu lhe garanto, em que começará a perceber: “Nossa, isto não está sendo divertido. Isto não é agradável”.
E, se eu realmente tiver vivenciado anicca dentro da estrutura do meu corpo e em níveis mais profundos, poderei aceitar isso com um sorriso e com calma até o último suspiro. É algo sobre o qual, mais uma vez, você tem controle. É você quem escolhe: quão feliz quero me tornar nesta vida? E, se eu quiser viver mais sete vidas, tudo bem, posso fazê-lo. Ou 70, 700, tanto faz.
Mas, novamente, não podemos escolher em qual desses supostos 32 planos de existência nasceremos na próxima vida. Tudo depende dos nossos sankharas, das nossas... do nosso carma, ou do termo que você preferir usar.
Carma, desigualdade e oportunidade
Neel: Outra coisa que me pareceu um pouco injusta é que, se o caminho para a libertação exige um ambiente mental tão cuidadosamente preparado como o que um retiro de meditação de dez dias pode proporcionar — e algumas pessoas se tornam monges e vão para mosteiros —, essa possibilidade é inconcebível para muitas pessoas que nascem em condições de grande privação ou em meio à guerra. E quanto a elas? Parece que todo o universo e sua cosmologia seriam muito cruéis. Isso seria o carma das vidas passadas delas?
Tim: Sim. A cosmologia, ou como quer que você chame isso... O carma não tem... Não há crueldade. Não há... Estamos aqui por causa dos nossos... do nosso carma. E você tem um carma muito bom por ter saúde.
Sabe, num dos seus discursos, o Buda fala sobre nascer como ser humano. Que acontecimento incomum; que carma extraordinariamente bom! Ele diz: imagine — não uma boia de pneu, porque não havia boias de pneu na época do Buda, mas algum objeto flutuante semelhante — jogá-la no oceano Atlântico, a partir da costa da África. Depois, imagine uma tartaruga saindo do Brasil, da Amazônia, nadando debaixo d’água rumo ao continente africano. Ela nada submersa durante semanas e, de repente, emerge no vasto oceano Atlântico com a cabeça bem no centro daquela boia ou do objeto que estivesse flutuando ali. Quais seriam as chances de isso acontecer?
O Buda diz que nascer como ser humano é ainda mais... Não consigo pronunciar a palavra, infinitesimalmente? Sim, obrigado. As chances de a tartaruga emergir com a cabeça no centro daquela boia são maiores do que as nossas chances de nascer como seres humanos.
E o motivo pelo qual o plano humano é tão notável, tão singular, é que podemos experimentar todos os 32 planos de existência nesta vida humana, desde a maior bem-aventurança da libertação até as profundezas mais baixas. Mas, toda vez que ficamos com raiva, entramos em sintonia com as vibrações dos planos inferiores.
Voltando ao seu carma pessoal: não desperdice isso. Já conduzi cursos em uma prisão de segurança máxima no Alabama, onde muitos daqueles homens cumprem pena perpétua porque mataram alguém. E eles começam a reclamar comigo: “Não posso fazer isto”, e assim por diante. Eu digo: “Se você vier me dizer que não quer fazer isto, direi: ‘Agora talvez você esteja falando a verdade’. Se disser que não pode fazer por isto ou aquilo, direi que são desculpas”. Você precisa decidir se quer ou não se tornar feliz.
Eu lhes digo, porém, que há duas provas incontestáveis de que eles têm capacidade para fazer isso. A primeira é que nasceram como seres humanos. Conto aquela história sobre o quanto isso é singular. Você não é um jacaré, um mosquito ou uma libélula. Eles não conseguem fazer isso. Não têm as faculdades nem a capacidade de se auto-observar como nós conseguimos, observando este corpo material e sentindo essas sensações. Isso é muito singular.
A outra prova de um carma extraordinário é que você está sentado diante de mim. Não sei o que fez para vir parar nesta prisão, e não me importa, mas está diante de mim, participando de um curso. Você veio a esta prisão sombria, onde os presos chegam a matar uns aos outros. Às vezes eles realmente se matam ali. Uma vez, quando eu estava lá, durante uma briga no pátio, alguém arrancou o nariz de outro homem com uma mordida para interromper a briga, porque perder o nariz assim é bem doloroso. Eu não vi a cena acontecer, mas vi um dos homens na enfermaria, e ele estava em péssimo estado.
Eu disse: “Este lugar onde vocês vivem é um inferno, mas olhem para os bilhões de pessoas fora desta prisão que não fazem ideia de que existe um caminho de libertação, uma técnica pela qual alguém pode se libertar por meio dos próprios esforços. Ter acesso a isso é resultado de um carma extraordinariamente bom. Então, não desperdice, não trate isso como algo sem importância”.
Alguma coisa trouxe você aqui. E não apenas para um curso: você entendeu algo naquele curso, praticou o suficiente para obter benefícios e perceber que havia algo de bom, de benéfico nisso, a ponto de voltar para outro curso. Não trate isso como algo sem importância. Guarde isso e continue desenvolvendo.
Essa é a primeira qualidade da iluminação. É devoção, mas não uma devoção cega. É algo que você experimentou por si mesmo. Não é algo que ouviu de algum gringo de Illinois que, às vezes, fica sentado naquele assento elevado. Não é algo que ouviu num discurso pela televisão ou leu num livro. É algo que já experimentou duas vezes.
Você sabe por experiência própria que seu segundo curso não foi igual ao primeiro. Espero encontrá-lo algum dia na Índia, num curso de 30, 45 ou 60 dias. Veja os resultados que obterá.
Acho que foi depois do meu quarto curso no Japão que conheci um homem que havia feito um curso de 45 dias. Achei que ele fosse louco. Aquilo era tão difícil, tão desafiador. Como alguém em sã consciência poderia fazer isso durante 45 dias? Só podia ser maluco. Cerca de três ou quatro anos depois — acho que foram três — eu estava fazendo cursos de 20, 30, 45 e 60 dias. Você consegue. Os cursos são desafiadores, mas continuamos voltando por causa dos benefícios.
Meus pais disseram que fizeram o primeiro curso por devoção a um dos filhos, que lhes falou: “Quero que venham experimentar isso porque vou praticar pelo resto da vida. Quero que saibam o que estou fazendo. Quero que confiram por mim”. Eu os enganei. Vieram por devoção a mim, mas minha mãe acabou fazendo três cursos e meu pai, quatro. Não fizeram os demais por devoção a mim. Voltaram porque obtiveram resultados no primeiro.
A experiência em vez da conversa
Neel: Sim, sim. Parece que muitas das suas palavras são um incentivo constante para assumir mais responsabilidade pessoal pelo caminho que seguimos. E você também parece nos lembrar de que, se fizermos a prática corretamente, veremos os resultados.
Tim: Eu poderia ficar aqui conversando com você o dia inteiro, todos os dias do ano, e isso não... Quer dizer, talvez você gostasse, mas os benefícios reais vêm de fazer esses cursos ou, onde quer que estejamos, de fazer duas coisas: observar as sensações, senti-las e tentar não reagir a elas.
Só aprendi a palavra “Vipassana” no meu terceiro curso. Para mim não fazia diferença; eu nem conseguia pronunciá-la. Só sabia que qualquer pessoa que se sentasse ali e fizesse um esforço sincero para começar a sentir as sensações e treinar a mente para não reagir a elas acabaria, mais cedo ou mais tarde, se libertando dos próprios complexos, de toda a infelicidade e de tudo que a fazia sofrer na vida.
O que diria ao Tim mais jovem
Neel: Se pudesse voltar no tempo e encontrar o jovem Tim, talvez com mais ou menos a minha idade, na casa dos 30 anos, teria algo a dizer a ele?
Tim: Sabe, contei que fiz meu primeiro curso aos 33 anos. Deixe-me desligar o cronômetro para não ficar preso ao horário. Você já fez ou disse algo de que se arrepende?
Neel: Sim, muitas vezes.
Tim: Quem não fez? Todos fizemos. Bom, antes dos 33 anos, antes do meu primeiro curso, fiz e disse muitas coisas de que me arrependo profundamente. Eu recomendaria àquele Tim de antes da Vipassana: não faça nada de ruim. Não diga nem faça coisas prejudiciais, que não sejam saudáveis. Tente fazer apenas coisas boas, saudáveis e benéficas. Todos nós sabemos quais são essas coisas. Não precisamos que ninguém nos diga. No fundo, todo mundo sabe o que é bom e ruim, o que é saudável e prejudicial, o que é benéfico e o que não é.
Tecnologia e domínio da atenção
Neel: Certo, já são quatro e meia, mas, se você tiver mais um minuto, gostaria de fazer a última pergunta.
Tim: Podemos conversar, sim. Tudo bem. Vamos esclarecer tudo. Gosto de responder ao maior número possível de perguntas. Quero que você tenha absoluta clareza sobre o que está fazendo. E, se tirar desta conversa uma única gota de incentivo para continuar no caminho em que está, toda a conversa terá valido muito a pena.
Neel: Muito obrigado, Tim. Então, minha última pergunta: qual você acha que é o efeito da tecnologia atual sobre nossa mente e a sociedade, e qual a relação disso com a atenção plena? Outro dia eu conversava com um amigo sobre como muitas vezes sinto nostalgia da tecnologia dos anos 1990 ou 2000. Talvez seja uma caracterização injusta, mas cresci nos anos 1990 e sinto que, naquela época, a tecnologia ainda se voltava a melhorar o que os seres humanos conseguiam fazer. Em algum momento, talvez ela tenha atingido o auge da sua capacidade de servir à humanidade e, depois disso, tenha se tornado mais voltada para si mesma: como fazer as pessoas comprarem mais e ficarem cada vez mais viciadas em tudo isso.
Por isso, várias vezes pensei em voltar a usar algo como um celular simples, de abrir e fechar, porque ele não parece ambicionar controlar minha mente e meus hábitos. Continua sendo uma ferramenta. É mais um servo do que um mestre da mente. Infelizmente, considerando tudo com que estou conectado na vida acadêmica, no e-mail e em outras coisas, seria um desligamento excessivo. Não é realmente viável. Então acabei ficando com um iPhone 5 usado, de uns dez anos atrás, e me recuso a trocá-lo.
Tim: Dá para fazer isso. Eu usava um daqueles celulares de abrir e fechar até recentemente. Este aqui é novo, comprei neste ano. Não gosto dele porque é maior do que o meu... aquele era... Sim, não uso nenhum desses recursos, nem mesmo o Google Maps. Durante algum tempo tive um smartphone por causa do trabalho. Precisava dele porque transportava pacientes para atendimento médico não emergencial. Mas agora estou em Edwardsville, Illinois, e, quando dirijo até o Texas, faço isso de um jeito que talvez você nunca tenha experimentado: usando um mapa.
Neel: Não, na verdade já fiz isso. É difícil lembrar, mas todas essas inovações de internet e mapas aconteceram há relativamente pouco tempo. Na graduação, tive a oportunidade de fazer um intercâmbio na Alemanha. Foi a primeira vez que saí da Índia. Fiquei lá três meses e meio e aproveitei ao máximo para viajar de mochila pela Europa, porque o visto Schengen permitia circular pela maior parte do continente.
A tecnologia da internet e dos smartphones ainda não era boa o suficiente. Eu consultava o Google Maps, imprimia algumas instruções e levava aquelas folhas comigo para outro país. Ao chegar à estação de trem — as cidades europeias costumam se organizar ao redor de uma estação central ou algo parecido —, procurava um posto de informações turísticas, pegava um daqueles mapas gratuitos cheios de propagandas no verso e, na maioria das vezes, explorava tudo a pé. Acho que muita gente ficaria apavorada com a ideia de fazer isso hoje.
Tim: Mas funciona, não funciona? Gosto de mapas.
Neel: Em particular, comecei a acreditar que nossa geração enfrenta hoje um grande desafio. Tenho a impressão de que boa parte da tecnologia atual nos hipnotiza e nos afasta do mundo real. Você acha que meus receios são exagerados?
Tim: Não. Posso lhe dizer isso porque minha televisão parou de funcionar há dois dias. Ou fique dois dias sem o celular e veja como sua vida muda. A questão é: quem é meu mestre? Quem é o seu mestre?
Quanto a esses aparelhos que temos... Sou das antigas. Acabei de voltar de um curso individual em Dhamma Siri, no Texas, e conversei com o professor de lá. Ele recomendou que eu usasse WhatsApp. Não tenho isso no meu telefone. Respondi: “Aí as pessoas poderiam me procurar o tempo todo, me escrever, e eu teria de responder”. Já tenho dificuldade suficiente para acompanhar meus e-mails. Aliás, ainda tenho duas chamadas pelo Zoom hoje, com alunos que querem conversar comigo: uma sobre a meditação dela, outra sobre uma inscrição.
Nós, como pessoas, temos de decidir traçar um limite ao nosso redor. Quanto quero me envolver com coisas externas a mim? Para mim, o e-mail é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. Lembro dos tempos de escrever cartas, lamber o selo e colocá-las no correio. Uma carta é tão diferente de um e-mail. Carrega a personalidade da sua caligrafia e muito mais. Quantos e-mails você já enviou e, depois de clicar em “Enviar”, pensou: “Talvez não devesse ter enviado isto”? Principalmente quando apertei “Responder a todos” em vez de responder apenas à pessoa para quem estava escrevendo.
Todas essas tecnologias oferecem benefícios, mas também trazem uma maldição. Temos de escolher. Esse é outro motivo pelo qual eu poderia ter ficado em casa e feito aqui aquele curso individual de dez dias. Mas, para mim, é muito melhor estar no ambiente de um centro de meditação e poder meditar no pagode durante os dez dias, sem a tentação de olhar o celular, ligar a televisão ou responder aos e-mails. É preciso escolher; cada um decide por si.
Por isso recomendo que você sirva em um curso. Isso vai ajudá-lo, porque, ao servir, mantemos um pé no mundo da meditação e outro no mundo extrovertido do trabalho. Precisamos nos comunicar com os outros servidores: “Quem vai preparar a salada hoje? Quem vai fazer isto? Você se lembrou de colocar aquilo no lugar?”. Depois vamos meditar; participamos das três sessões de meditação em grupo e assim por diante.
Quando comecei a servir, descobri que, ao voltar à rotina e ao trabalho, minha atividade profissional ficava muito mais fácil, porque eu ainda mantinha, de certo modo, um pé no mundo exterior. Conseguia interagir melhor com as pessoas, de maneira mais saudável. Foi uma boa experiência.
A prática diária
Neel: E não é preciso... Sabe, Goenkaji recomenda fazer pelo menos um curso de dez dias por ano?
Tim: Bom, quando comecei, acho que fiz quatro ou cinco cursos de dez dias no primeiro ano, porque pensava: “Preciso disto, preciso...”. E o que acontecia? Eu voltava para casa e, nas primeiras três semanas, tudo ia bem: meditava duas vezes ao dia. Depois minha meditação ficava cada vez mais fraca, e eu voltava a reagir do jeito de sempre, seguindo os velhos padrões e aquela reação automática de ficar com raiva das pessoas. Então eu dizia a mim mesmo: “Tim, está na hora de voltar a Kyoto e fazer mais um daqueles cursos de dez dias”.
Neel: Sim. Relacionada a isso, vai a última, última pergunta — vamos esclarecer todas. Como é sua prática regular quando você não está num retiro?
Tim: Uma hora, duas vezes ao dia. Às vezes deixei de fazer a meditação da noite. Ela sempre foi mais desafiadora para mim. Mas, como ele diz, quem faz um esforço firme para manter a meditação diária durante o primeiro ano depois do curso, se conseguir fazê-lo por um ano, continuará fazendo pelo resto da vida.
A meditação da manhã sempre foi mais fácil para mim. Levanto, faço o que preciso, vou ao banheiro e então, como primeira atividade do dia, sento na almofada. Ajuda ter um lugar para meditar, livre de distrações, mesmo que seja apenas um canto do quarto em que nada mais aconteça. Sem escrivaninha, sem aparelhos, nada disso. E meditar todos os dias no mesmo lugar.
Você pode acumular ali essas vibrações de ausência de desejo e aversão. No Japão, eu tinha um pequeno cômodo separado no meu apartamento dedicado exclusivamente à meditação. Percebi que, se conseguisse entrar naquele cômodo, era como ouvir um árbitro de beisebol gritar “salvo!”: imediatamente ficava muito mais fácil começar a meditar. Mas, à noite, eu precisava levantar o corpo inteiro, desligar a televisão, parar de ler o jornal ou o que estivesse fazendo e entrar naquele cômodo.
Fiz uma promessa a mim mesmo. Eu tinha um trabalho estressante e horários que nem sempre eram iguais. Ajuda meditar no mesmo horário, mas isso não era possível para mim. Então decidi que não me permitiria jantar antes de fazer a meditação da noite. Isso ajudou, porque eu sempre tinha fome e queria jantar. Além disso, eu não podia jantar antes de meditar: se fizesse isso, adormeceria durante a prática. Ficava grogue demais.
Tédio e retorno à respiração
Neel: Sim. Você alguma vez sente tédio ao meditar?
Tim: Ah, sim. Que bom, ainda bem que se lembrou! Vi essa pergunta. Muita gente me pergunta isso nos cursos, dizendo que sente tédio. O que é tédio? Pense primeiro no que é tédio.
Neel: Para mim, tédio é a incapacidade de manter a atenção numa coisa só. Uma espécie de agitação: a atenção não quer ficar ali; é uma energia que quer visitar muitas coisas diferentes.
Tim: Isso, como inquietação. Certo. E por que nossa mente quer fazer isso? Por que quer ir a tantos lugares? Existe um motivo. Mas uma definição clara de tédio seria: “Não estou satisfeito, neste momento, com o que é”. Minha mente não está satisfeita, agora, com o que é.
Quero algo que não está presente. Se isso acontece durante um curso, penso: “Quero fogos de artifício. Quero isto. Quero aquilo. Quero meu telefone, quero falar com alguém pelo telefone, quero olhar o telefone”. Aqui está: desejo. “Quero isto, quero aquilo.” É assim que nossa mente funciona.
Ou, então: “Não gosto do que está acontecendo agora. Não gosto do que estou sentindo nem do estado em que minha mente se encontra”. Isso é aversão. Desejo e aversão. O exercício é perceber: “Ah, minha mente está fazendo isso de novo”. Sorria para ela. Aí está minha mente de macaco. Aperte a mão do macaco: “Tudo bem, estou vendo você. Aqui está uma banana”.
E comece a respirar um pouco mais intensamente, quer esteja meditando, trabalhando ou em qualquer outro lugar. Essa é sua âncora durante a tempestade, a qualquer hora. Sempre que quiser retomar o controle ou acalmar a mente, mesmo que esteja morrendo, seja qual for a situação.
Qualquer pessoa que leve a atenção de volta à pequena área abaixo das narinas e acima do lábio superior, e se esforce para sentir o que acontece ali ou o contato da respiração, verá a mente se acalmar automaticamente. Ela se concentrará. Então você poderá continuar fazendo o que tentava fazer, seja Vipassana, movendo a atenção pelo corpo, seja concentrando-se no trabalho ou em qualquer outra coisa.
Esta é uma ferramenta extraordinária. Não é filosofia, ideologia nem algo exclusivo da Vipassana. É realidade. Qualquer pessoa, independentemente de quem seja ou do que acredite, que se esforce para trazer a atenção de volta a essa pequena região onde as narinas encontram o lábio superior e tente perceber o que acontece ali ou sentir o toque da respiração entrando e saindo — sem manipulá-la, apenas sentindo-a — verá sua mente se acalmar automaticamente.
Se fizer isso, não acredite em nada do que ouviu nesta conversa. Experimente tudo por si mesmo. Em especial, se sentir tédio, durante a meditação ou em algum momento da vida, volte a atenção para essa área, veja o que acontece e o tédio irá embora.
A conversa continua
Neel: Certo, Tim, essas eram todas as minhas perguntas. Não ficou nenhuma sem resposta. Quero lhe agradecer muito. E, sabe, eu não tinha percebido que você estava um pouco tímido diante da câmera. Então, quero lhe agradecer especialmente por...
Tim: Queria lhe explicar o motivo disso. No começo, quando as pessoas vêm falar comigo durante o curso e começam a fazer perguntas pessoais, eu as interrompo imediatamente e digo: “Não me importo de responder perguntas pessoais, mas, se começar a respondê-las, você vai se distrair e virão mais perguntas, uma atrás da outra”. Naquele momento, meu trabalho ali é trazer as pessoas de volta à técnica. Eu digo: “Você veio aqui para examinar a si mesmo, não ao professor”. Cada pessoa que participa desses cursos tem sua experiência pessoal. Eu tinha receio de que você usasse isso como algum tipo de... Não queria que isto virasse um discurso ou uma...
Neel: Sim.
Tim: Mas, quando você me enviou as perguntas, pensei: “Ah, são apenas perguntas, e são boas perguntas”. Sempre fico contente em responder perguntas sobre a técnica ou relacionadas a ela. Também não tenho problema em falar sobre como ela ajudou na minha vida pessoal. Fico sempre feliz em responder.
Neel: Sim. Bom, muito obrigado, Tim, por... [Tim:] Mas eu queria lhe fazer uma pergunta, se você não se importar. Como vai a sua prática?
Neel: Bem, eu diria que não medito duas horas por dia. Minha prática regular tem sido basicamente 15 minutos de Anapana. Faço isso há uns sete anos.
Tim: Espere, espere. Achei que você tivesse feito seu primeiro curso em 2017.
Neel: Sim, mas já praticava Anapana antes do meu primeiro curso.
Tim: Então você pratica 15 minutos há sete anos, todos os dias. E por que não pratica Vipassana?
Neel: Eu diria que as únicas vezes em que pratiquei Vipassana foram durante os dois retiros de que participei, porque fazia parte do programa. O principal motivo, acho, é que aprendi Anapana primeiro e fiquei bastante à vontade com essa prática. Ela parece apresentar menos obstáculos: sinto que sei como fazê-la. Já a Vipassana é difícil para mim. Vou reconhecer isso. Sinto que...
Tim: Sim. Repita a parte sobre ser difícil.
Anapana, Vipassana e resistência
Tim: Vipassana. A verdadeira razão pela qual não queremos fazê-la, ou pela qual sentimos resistência, é que ela funciona. Começa a trazer coisas à tona. Não é divertido, não é um passeio no parque. Quem começa a observar as sensações no corpo e a voltar a mente para a experiência concreta não vai necessariamente se sentir bem. Quero dizer, a prática traz coisas à superfície, e as pessoas não gostam disso.
Às vezes — não muito frequentemente, mas acontece — vejo em cursos um aluno que, após três dias e meio de Anapana, teve experiências muito tranquilas e serenas, porque acalmou bastante a mente. Quando começamos a praticar Vipassana, essa pessoa não gosta da mudança, não quer praticá-la e prefere continuar voltando à Anapana.
Neel: Sim, isso definitivamente aconteceu comigo.
Tim: E isso é um grande obstáculo, porque mostra que temos preferências e preconceitos, e que estamos buscando aquela bem-aventurança, aquele êxtase. Eles virão se purificarmos a mente em níveis mais profundos, mas, para chegar lá, precisamos atravessar algumas coisas desagradáveis. Precisamos observar as impurezas à medida que vêm à tona e se manifestam no corpo como uma sensação, uma dor aqui, um incômodo ali ou outra sensação desagradável.
Se o objetivo for apenas alcançar alguma sensação agradável e tranquila, não há nada de errado em fazer Anapana ou trabalhar com uma imagem ou um mantra. É muito fácil concentrar a mente usando uma imagem, um mantra, alguma imaginação, visualização ou verbalização.
Vipassana não é divertida, mas quem realmente deseja purificar a mente num nível mais profundo, ou no nível mais profundo possível, precisa trabalhar com o corpo inteiro. Precisa trabalhar no nível das sensações e começar a observar sua verdadeira natureza, a senti-la: nenhuma sensação é permanente. Todas as sensações que temos surgem e desaparecem, surgem e desaparecem. Esse é o processo de purificação.
Tempo, escolhas e prioridades
Neel: Então você diria — não se trata de tudo ou nada, mas, supondo que eu tenha 15 minutos e saiba que o ideal seria dedicar duas horas — que ainda assim é melhor praticar Vipassana, em vez de Anapana, durante esses 15 minutos?
Tim: Bem, uma coisa que você precisa esclarecer para si mesmo é que as pessoas costumam me dizer que são ocupadas demais para meditar duas horas por dia: têm isto, aquilo e todas essas desculpas. Então pergunto: “Quem é o mestre da sua vida? Quem é seu chefe? Quero conversar com seu chefe”. Alguns brincam: “É minha esposa”, ou “meu filho”, ou seja lá quem for.
Há apenas uma coisa que temos de fazer na vida. Todo o resto é escolha. Qual é a única coisa que temos de fazer?
Neel: Não sei. Respirar, acho.
Tim: Não, não precisamos respirar. Podemos parar de respirar. O que acontece se pararmos?
Neel: Ah, acabamos morrendo, imagino.
Tim: Morremos. É a única coisa que temos de fazer na vida. Todo o resto é uma escolha. Então não... Se quiser se iludir e jogar esses jogos de “tenho isto para fazer e aquilo também”, é com você. Você é seu próprio mestre; é você quem escolhe suas prioridades. Se, neste momento, tornar-se feliz ou mais feliz não é sua prioridade, essa é sua escolha.
Mas, sabe, aqueles homens na prisão, muitos deles trabalham muito duro. Trabalham mais do que as pessoas do lado de fora, embora todos sejamos prisioneiros dos antigos padrões habituais da nossa mente, independentemente de estarmos fisicamente presos ou não. Eles trabalham mais do que a chamada população normal porque compreendem o sofrimento num nível mais profundo.
Eles entendem que, mesmo vivendo naquele inferno e talvez nunca saindo de lá, porque foram condenados à prisão perpétua sem direito à liberdade condicional, a prática os ajuda. Sofrem muito porque mataram outro ser humano ou cometeram algum ato terrível; carregam um carma pesado que precisam enfrentar. Levam isso a sério porque percebem que a prática os faz sentir-se melhor e lidar melhor com o ambiente em que vivem.
Você tem 32 anos e uma vida ótima. Não há tanto sofrimento acontecendo agora na sua vida. Por isso, não há tanta motivação para se sentar e enfrentar de verdade as experiências mais difíceis que essas sensações possam trazer. Mas essa é sua escolha. Esse é seu carma. Depende inteiramente de você.
O afastamento da família
Tim: No começo, minha principal motivação para participar daqueles primeiros cursos foi perceber quanta gratidão eu sentia pela minha mãe e pelo meu pai, pela vida que me deram e pelos esforços que fizeram. Dedicaram-se a nós quatro, os filhos — eu e meus irmãos. Eu era muito grato por isso.
Ao mesmo tempo, eu havia passado cinco anos sem falar com eles enquanto morava no Japão. Essa foi uma das razões pelas quais fui para lá, e eu não tinha telefone, então eles não conseguiam me encontrar. Eu tinha muita raiva deles. No meu primeiro curso, percebi: “Isto tem de parar. Não é saudável nem para mim nem para eles. Preciso mudar minha vida de verdade”. Também comecei a entender por que fizeram tudo o que fizeram.
Minha mãe era alcoólatra; meu pai tinha propensão à violência e era abusivo. Percebi que eles apenas repetiam o que conheciam. Era tudo o que sabiam. Estavam presos naquele ciclo.
E percebi que, sendo até então a única pessoa da minha família que tinha encontrado essa técnica de libertação, eu carregava uma responsabilidade enorme. Era o único que poderia lhes dizer que não precisavam mais sofrer, que realmente poderiam sair daquele sofrimento.
Foi essa a inspiração para os cinco primeiros cursos que fiz. Precisava mudar profundamente dentro de mim antes de voltar e lhes falar sobre Vipassana. Se não houvesse mudanças perceptíveis em mim, apenas diriam: “Sim, claro, está bem”. Precisavam ver mudanças reais no filho.
Foi durante o sexto curso que, no meio da prática, me ocorreu: “E se eles morrerem antes que eu lhes fale sobre Vipassana?”. Fiquei assustado. Pensei que precisava me esforçar para voltar depois daquele curso, ou de algum curso seguinte, retomar a comunicação e conversar com eles.
Comecei a escrever cartas separadas para cada um. Minha mãe respondeu; meu pai, não. Escrevi mais algumas cartas para ela e disse que precisava ter notícias dele antes de ir visitá-los. Ainda assim, ele não respondia. Então percebi: “Um de nós precisa ser o adulto nesta relação. Ele ainda guarda algum ressentimento, mas sou eu quem precisa agir com maturidade e deixar isso de lado”.
O retorno e a meditação na casa dos pais
Tim: Fiz outro curso, acho que em Massachusetts. Depois voei até St. Louis e peguei emprestada a bicicleta da minha irmã. Eu tinha uma barraca e um saco de dormir. Foi um dos verões mais quentes já registrados no Missouri. Atravessei o estado de bicicleta; levei oito dias. Fiz isso também como uma espécie de treinamento pessoal. Acampei no quintal dos meus pais. Às vezes entrava para almoçar ou jantar com eles, mas não queria ficar dentro de casa. Continuava acampado no quintal.
Num desses almoços, meu pai e eu quase voltamos aos velhos padrões: reagir, apontar o dedo um para o outro. Estávamos prestes a desembainhar as espadas e bater de frente de novo. Mas eu já havia feito seis ou sete cursos e desenvolvido alguma sensibilidade para aquele “secretário particular” de que ele fala, que trabalha 24 horas por dia: nossas sensações. Elas começaram a gritar: “Olhe, patrão! Olhe, patrão! Raiva, raiva!”.
Eu me dei conta e disse: “Espere, estou estragando tudo. Desculpe. Não vim do Japão até aqui para brigar com ninguém. Estou apenas reagindo, e reagindo mal”. Então lhes disse: “Como podem ver, ainda sou muito imaturo, tanto na vida quanto nesta técnica. Vocês fariam um grande desserviço a si mesmos se julgassem a técnica por mim e pela minha imaturidade”.
“Mãe, você poderia me emprestar um dos quartos de hóspedes? Preciso meditar por três dias. Pode me ceder um quarto? Você poderia me dar alguma coisa para comer às onze da manhã, algo... vegetariano ou não vegetariano? Vou preparar meu próprio café da manhã às seis e meia, enquanto vocês ainda estiverem dormindo. Apenas não conversem comigo. Deixem-me sozinho naquele quarto durante três dias.”
E, claro, minha mãe, porque amava o filho, ficou feliz em me servir. As mães amam seus filhos. Meu pai também não se opôs. Fiz, então, um curso individual de três dias num dos quartos vagos da casa deles. Trabalhei muito, porque sabia que precisava mudar para que a técnica se tornasse atraente para eles.
Quando saí do curso, todo o clima da casa havia mudado. Essa coisa chamada Dhamma, as vibrações do Dhamma — que não são senão ausência de desejo e aversão, compaixão e amor — havia mudado a atmosfera. Quando saí daquele quarto, eles sentiram algo. O clima da casa inteira havia mudado. Foi então que concordaram: “Certo, vamos fazer um curso. Vamos experimentar”.
Seis meses depois, na época do Natal, voltei do Japão para os Estados Unidos e aterrissei em Dallas. Encontrei meus pais num hotel, passamos a noite lá e, no dia seguinte, pegamos uma carona compartilhada até Dhamma Siri. Eles fizeram o primeiro curso, e eu me sentei para praticar com eles. Eu lhes havia dito: “Se vocês ficarem desanimados ou perdidos, basta abrir os olhos e me verão sentado ali, passando pela mesma coisa e sofrendo enquanto tento encontrar minha libertação”.
No décimo dia, quando já podíamos conversar, minha mãe me viu e começou a chorar. Nunca vou esquecer as primeiras palavras que ela disse: “Você deve nos amar muito para ter nos trazido até aqui”. Meu pai era daqueles homens... A única emoção que demonstrava perto dos filhos era raiva, às vezes acompanhada de violência. Ele quis passar o braço pelos meus ombros.
Depois minha mãe disse: “É tão lógico”. Ela era musicista e professora de jardim de infância. Meu pai era engenheiro químico e, quando os dois discutiam, ela reclamava: “Você sempre precisa ser tão lógico?”. “Lógico” era algo ruim para ela. Mas a segunda coisa que disse sobre Vipassana foi justamente: “É tão lógico”.
E a terceira coisa que disse foi: “Gostaria que Pat, minha filha que tem crianças, viesse experimentar”.
O segundo curso dos pais
Tim: Alguns meses depois, voei novamente do Japão, desta vez para Seattle, e nos encontramos lá. Eles fizeram o segundo curso. Ao me ver, minha mãe perguntou: “Aqueles discursos eram os mesmos que ouvimos antes? Eram diferentes. Não são os mesmos discursos do primeiro curso”.
Respondi: “Mãe, eram exatamente os mesmos discursos. O que acontece é que existe essa coisa chamada saññā. Nossa mente nos prega peças”. Tenho certeza de que os discursos que você ouviu no segundo curso lhe pareceram um pouco diferentes daqueles do primeiro, não é?
Neel: Lembro que, se isso não foi exatamente o que vivi, percebi que minha reação aos discursos tinha mudado. Durante o primeiro curso, eu ainda pensava: “Ah, isso é meio esotérico”. Julgava algumas coisas, especialmente quando Goenkaji falava das pequenas vibrações. Eu pensava: “Não, sou físico. Não é bem assim que isso funciona”, e por aí vai.
No segundo curso, percebi que reagia de outra maneira aos discursos. Estava um pouco mais receptivo ao que ele dizia, particularmente sobre aquelas coisas que chamava de kalapas. Algumas pessoas as chamam de bolhas.
Aliás, depois que a regra de silêncio foi suspensa no alojamento masculino, no segundo curso, as pessoas ficaram conversando no corredor. Um dos participantes repetia exatamente a atitude que eu tivera no primeiro curso. Dizia algo como: “Ei, você tem doutorado em física: é mesmo assim que as partículas subatômicas funcionam?”, e assim por diante.
Lembro que respondi não achar tão importante descobrir exatamente qual será a descrição dos físicos. Para mim, o que importa é a mensagem que se tenta transmitir e a relevância dela para a prática. Os detalhes físicos específicos, seja qual for a conclusão da ciência, não são realmente tão importantes. Pensei: “Uau, na primeira vez em que estive aqui, eu não pensava assim”.
A física e a experiência
Tim: Exatamente. Você se saiu bem. E, nesse aspecto, seu terceiro curso será ainda melhor, assim como o quarto. Espere até participar de um curso longo: quanto mais fundo vamos, mais conseguimos compreender, especialmente essa coisa que você chama de física. Pelo pouco que entendo, a física não é senão uma descrição das leis da natureza. É justo dizer isso?
Neel: Sim, sim, totalmente.
Tim: Acho que posso dizer, com razoável certeza, que, neste momento, por causa dos limites da nossa capacidade humana e das formas que temos de nos comunicar, há aspectos da física que não conseguimos expressar em palavras. Mas, como você disse, tudo bem. Ele também diz que, se houver partes dos discursos com as quais você não concorda ou nas quais não acredita, tudo bem. É como ele diz: tire aquele ingrediente escuro do seu kheer; você ainda pode saborear o doce sem ele. Mais tarde, talvez perceba que aquilo era cardamomo, que também tem seu próprio sabor.
É isso que digo às pessoas: não acreditem em nada que ouvirem de mim ou de qualquer outro. Não acreditem até vivenciarem por si mesmas, porque só assim receberão o benefício da experiência. Eu tinha me esquecido de que é em física que você faz seu doutorado.
Lembro-me de um homem num curso em Massachusetts. Era um senhor um pouco mais velho, talvez na casa dos 50 anos. Ensinava física em Harvard. Vinha do Nepal, mas dava aulas em Harvard. Também era médico; tinha uma graduação em medicina e um doutorado em outra área além da física. Não lembro em qual. Talvez mecânica quântica — mas acho que isso também é física — ou bioengenharia, não sei. De qualquer modo, era um homem muito inteligente e ensinava numa das universidades mais prestigiadas do mundo.
Eu sempre me surpreendia com as dificuldades que ele encontrava ao praticar a técnica. Cheguei a dizer, em tom elevado: “Seu intelecto é tão forte que se tornou um grande obstáculo para você. Veja a dificuldade que está tendo para praticar”. Ele tentava continuamente analisar intelectualmente a técnica. Aquilo era um exercício intelectual. Não conseguia, de jeito nenhum, levar a atenção ao corpo para sentir as sensações, como você também tem dificuldade de fazer na Vipassana. Queria o tempo todo decompor tudo em partes.
Eu lhe disse: “Até agora, seu intelecto lhe serviu muito bem. Você saiu de condições pouco favoráveis no Nepal e se tornou um renomado professor de física numa das universidades mais prestigiadas do mundo. Nesse sentido, ele lhe foi útil. Mas agora virou um grande obstáculo para o seu progresso. Você precisa perceber isso”.
“Se quiser avançar neste caminho de libertação do condicionamento da mente — desse padrão habitual de repetir comportamentos prejudiciais e pouco saudáveis —, precisa reconhecer que o intelecto o impede de chegar a uma verdade mais profunda do que sua compreensão intelectual do mundo material. Continue se esforçando para trazer a atenção de volta ao corpo, ao nível físico, sentir as sensações e treinar a mente para não reagir a elas. Isso é purificar a mente. É esse o trabalho. E é a única maneira de progredirmos.”
Esse é também meu alerta para você. Nas nossas conversas durante seu curso, notei algo que me fez lembrar daquele homem. Você sempre trazia muitas perguntas sobre isto, aquilo e mais aquilo. Procure entender que o intelecto é apenas uma parte muito superficial da mente. Ninguém se ilumina nem se aprofunda apenas por meio do intelecto. Se insistirmos nele, acabará se tornando um obstáculo, porque só alcança a superfície.
Goenkaji dá nos discursos o exemplo daquele professor de Berkeley que desenvolveu uma máquina com a qual era possível ver, por meio da fumaça, o trajeto das partículas atômicas. Apesar disso, ele era uma pessoa muito infeliz. Entendia a física apenas no nível superficial do intelecto.
Eu o incentivo fortemente a dar o próximo passo, a ir mais fundo, a continuar se desafiando. Isso permitirá que a mente floresça e se abra, como aconteceu entre seu primeiro e seu segundo curso. Você pôde abandonar parte da aversão que sentira ao ouvir algumas coisas no primeiro e pensar: “Talvez o que ele disse não seja tão absurdo assim”.
Essa purificação da mente que chamamos de Vipassana é uma grande abertura: nosso ego começa a se dissolver em alguma medida. Percebemos: “Não sou tão inteligente quanto imagino. Há muita coisa que não sei”. Dê a si mesmo tempo e espaço para dizer: “Vou continuar me esforçando para sentir essas sensações e sua verdadeira natureza, a física no nível físico, real — não apenas mental ou intelectual —, observando seu surgimento e desaparecimento sem reagir. Vou ver o que acontece”. Faça isso e veja aonde o levará.
Neel: Sim, sim.
Tim: Isso o levará a um lugar melhor do que aquele em que está agora. Também fará de você um físico melhor; posso garantir isso com cem por cento de certeza, porque você estará vivenciando o que procura entender e aprender intelectualmente.
Neel: Concordo completamente. Sinto que, por toda a vida, meu intelecto foi como uma locomotiva enorme que só quer continuar avançando. Muitas vezes fico exausto e sobrecarregado porque minha mente não para. A meditação foi a primeira coisa que me mostrou uma janela para algo além do intelecto, algo que me traz tanta calma, clareza, sabedoria e humildade. Foi uma espécie de libertação do meu intelecto, que, se ficasse por conta própria...
Tim: Não, não foi “uma espécie de” libertação. Desculpe, mas, para mim, foi libertação. Como foi? O que você sentiu?
Neel: Senti como se tivessem tirado um enorme peso dos meus ombros.
Tim: Sim! Depois do meu primeiro curso, eu tinha vontade de pular e bater os calcanhares no ar. Aquele peso tinha sido retirado. Quando meu irmão me viu, disse: “Você parece mais leve”. Ele realmente disse que havia algo mais leve em mim. Isso porque uma parte daquela carga que levamos conosco tinha sido eliminada.
Continue fazendo isso. É por isso que voltamos. Não é divertido nem um passeio no parque, mas é o que nos faz voltar. É por isso que as pessoas continuam, fazem cursos de 20 ou 30 dias. É como tirar pedras da mochila. Mesmo sem ver o sol, você começa a perceber uma claridade por trás das nuvens, sente um pouco de calor e entende que existe algo além. E isso faz bem.
Álcool, maconha e cogumelos
Tim: Há outra coisa que eu queria abordar. No formulário, você escreveu que ainda bebia, fumava maconha e usava cogumelos. Isso continua acontecendo?
Neel: Sim. Eu diria que bebo talvez uma cerveja por semana, socialmente. A maconha tem mais ou menos a mesma frequência. Quanto aos cogumelos, ultimamente talvez uma vez a cada três ou quatro meses. Mas sim.
Tim: Certo. E por que você faz isso?
Neel: A bebida geralmente aparece numa situação social em que outras pessoas estão bebendo. Não fico pensando muito: compartilho uma bebida, mas não me sinto atraído pelo estado de embriaguez. Quase nunca fico bêbado.
Já com a maconha, sim: muitas vezes sinto que ela me relaxa, e às vezes sinto vontade de buscar esse relaxamento. Quanto aos cogumelos, classifico mentalmente a experiência com psicodélicos num patamar acima das outras substâncias. Sinto que eles me trouxeram muitos insights sobre mim mesmo e sobre a realidade. Algumas vezes os usei para tentar sair de uma fase em que parecia estar preso a um padrão, com a mente repetindo sempre as mesmas coisas. Em momentos diferentes, eles abriram uma janela para a criatividade, para enxergar o mundo com outros olhos ou para trazer alguma sabedoria à tona.
No futuro, aliás, quero pesquisar psicodélicos. Meu doutorado é em física, mas também faço algumas pesquisas em neurociência. É um tema que me intriga.
Tim: E se alguém lhe dissesse que existe uma maneira de alcançar todas essas experiências e metas de que você falou sem nada artificial? Sem precisar alterar a química do organismo com algo vindo de fora?
Neel: Isso me interessaria muito. Já notei que algumas experiências com psicodélicos se parecem bastante com minhas experiências de meditação. Mas a meditação é um caminho mais difícil e exigente; os psicodélicos às vezes parecem um atalho, um caminho mais fácil.
Tim: E quanto daquela experiência você lembra depois de ficar sob o efeito da maconha? Daqueles pensamentos maravilhosos que teve?
Neel: Sim. Não acho que dependa da maconha para ter qualquer iluminação; uso mais como um pequeno paliativo para relaxar.
O alerta de Tim
Tim: Então me permita fazer um alerta. Pessoas que usam drogas ou álcool às vezes vêm falar comigo durante os cursos e querem continuar usando. Eu digo: “A escolha é sua. Você é seu próprio mestre”. Mas posso dizer uma coisa com certeza: iluminação e intoxicantes não combinam. Não podem coexistir. É impossível.
Não falo isso como ideologia ou filosofia; estou falando de física. Quem quiser purificar a mente no nível mais profundo terá de abandonar, em algum momento, todos os intoxicantes, porque eles se tornarão um grande obstáculo. Podemos nos intoxicar também com outras coisas além das substâncias químicas.
Algumas pessoas querem argumentar: “Mas e só uma cerveja?”. Os franceses, por exemplo, costumavam discutir isso com Goenkaji, porque, pelo que ouvi, tinham o hábito de beber uma taça de vinho com as refeições. Perguntavam: “Qual é o problema de uma taça de vinho no jantar?”. Goenkaji não aceitava esse argumento. Dizia que talvez notassem que, nos dias em que tomavam uma taça de vinho, a meditação à noite ficava fraca e a mente divagava mais. O mesmo aconteceria com a maconha e os cogumelos.
Na hora, os cogumelos podem proporcionar algum insight ou clareza, mas não nos libertam das causas profundas que nos impedem de ter essa clareza. Eles também podem rapidamente aumentar a pesada carga de desejo que já carregamos dentro de nós e que nos trouxe a esta vida.
Quando consumimos qualquer uma dessas três coisas, ela produz uma sensação. Há uma liberação bioquímica real na corrente sanguínea, que gera uma sensação agradável. Por isso pergunto: você já conheceu alguém que tomou sua primeira dose de álcool com a intenção de se tornar alcoólatra? Você ri, mas a pergunta é séria. Já conheceu alguém?
Neel: Não, claro que não.
Tim: Todos pensam: “Eu nunca me tornarei alcoólatra. Isso acontece com os fracos, com pessoas de mente fraca. Nunca acontecerá comigo. Nunca me tornarei dependente de drogas, de maconha, desta ou daquela experiência”. Se isso fosse verdade, não haveria alcoólatras nem pessoas dependentes de drogas no mundo. Todos acham que sabem lidar com essas coisas.
E, se realmente soubessem lidar com tudo isso, saberiam lidar com todas as situações da vida: não reagiriam mal quando as coisas não seguissem sua vontade ou tomassem um rumo indesejado. Mas podemos purificar a mente e chegar a um ponto em que, diante disso, conseguimos sorrir e aceitar: “Neste momento, isso está fora do meu controle. É verdade, é a realidade que está acontecendo agora. Preciso encontrar uma forma de lidar com isso e seguir em frente”.
Portanto, se você realmente quer avançar neste caminho e tirar o máximo da experiência, caso decida fazer outro curso de dez dias e continuar praticando, essas três coisas que está fazendo não o ajudam. Você, como físico, deveria conseguir apreciar isso.
Observe as dificuldades que enfrenta nos cursos para impedir que a mente vá sempre aos mesmos lugares. Pensamos em todas aquelas coisas por duas razões: porque nos fazem sentir bem ou porque nos livram temporariamente de algo desagradável. Isso alimenta a parte mais profunda da mente que deseja sem parar.
Esse desejo existe dia e noite, a cada momento em que não percebemos as sensações e não as sentimos sem preferência ou preconceito. Ele diz que geramos continuamente três tipos de sankharas. Você se lembra daquela parte do discurso? Linhas traçadas na água, linhas traçadas na areia e linhas talhadas na pedra com martelo e cinzel.
Tenha muito cuidado. Estou lhe dando um alerta a partir da experiência pessoal: aquelas outras coisas que você faz podem rapidamente tornar-se linhas talhadas na pedra. As linhas na água desaparecem durante a noite, quando dormimos; não nos prejudicam tanto. As linhas na areia se tornarão linhas na pedra se as repetirmos continuamente, como quando remoemos um episódio com alguém, uma situação emocional num relacionamento: “Ele me disse aquilo. Da próxima vez que o encontrar, vou dizer...”. Entramos nesse ciclo repetidamente.
Você, como físico, talvez aprecie que há uma liberação fisiológica e bioquímica real de substâncias na corrente sanguínea, pelas glândulas, produzindo uma sensação. A parte mais profunda da mente sente essa sensação e se acostuma a ela. Não importa se é a sensação desagradável da raiva ou uma sensação agradável: a mente profunda a sente e desenvolve dependência dela.
Pense no jogador compulsivo. Não se trata de álcool, maconha, cogumelos nem LSD. Sua esposa o deixou; ele perdeu a casa, os filhos se afastaram, perdeu tudo que tinha importância na vida, inclusive o emprego. Ele sabe que não deveria apostar, mas, quando chega a hora, precisa lançar aqueles dados. Não consegue parar. Por quê? Tornou-se tão dependente das sensações associadas àquele lançamento que já não tem autocontrole suficiente para interrompê-lo.
No fim, talvez precise procurar os Jogadores Anônimos ou os Alcoólicos Anônimos. Ainda assim, o desejo permanece, porque não foi eliminado. Um grupo de apoio talvez o ajude a desenvolver autocontrole para não agir, mas ele continua sofrendo, pois o desejo ainda está lá, nas profundezas.
Com a Vipassana não há becos sem saída. É como a Autobahn alemã — não sei se você já dirigiu por lá. Não há ruas laterais nem becos sem saída; você pode dirigir tão rápido quanto quiser. Na Vipassana, está ao volante de um Porsche 911 que passa dos 320 quilômetros por hora: quanto mais se esforçar, mais avançará.
O essencial é o esforço de trazer a atenção de volta, de novo e de novo, aceitando: “Sim, minha mente divaga, tenho uma mente de macaco. Vou sorrir e aceitar isso, sem ficar irritado nem agitado; apenas continuar tentando”. É nesse esforço que adquirimos experiência e começamos a enfraquecer essa mente escorregadia que quer sempre ir aos lugares onde se sente bem. É o mesmo movimento que fazemos quando queremos tomar uma cerveja com amigos ou fumar maconha para relaxar.
Você pode ficar muito relaxado. Pode chegar a um ponto em que nada o incomode, sem recorrer a nada artificial, sem precisar de uma muleta que acabará atrapalhando seu progresso no aprofundamento do insight. Trata-se de perceber, no nível da experiência, o que é real e o que é apenas um sistema de crenças, uma conjectura, algo que li num livro, ouvi de alguém ou que corresponde à experiência de outra pessoa.
Esse foi meu pequeno discurso para você. Pense a respeito. Não sou seu mestre, nem o fiscal da maconha, dos cogumelos ou do álcool. Não estou aqui para policiar nada disso. Quero apenas trazer o assunto à luz. Cresci com uma mãe alcoólatra e isso me permitiu ver claramente o que pode acontecer.
Ela estava aprendendo a pilotar aviões. Era professora, criou quatro filhos, tocava órgão na igreja todos os domingos e liderava um grupo de escoteiras. Era uma mulher forte, que havia feito muitas coisas na vida, mas caiu nessa armadilha. Tornou-se escrava das sensações ligadas ao álcool. Isso realmente destruiu sua vida.
Ninguém a alertou para esse perigo quando era jovem. Ela procurou os Alcoólicos Anônimos e internou-se voluntariamente por um mês numa instituição de tratamento para parar de beber. Eu estava na Marinha na época. Depois ficou 21 anos sem beber, completamente sóbria. Então aconteceu alguma coisa — não sei o quê —, mas o desejo ainda estava lá, e ela voltou a beber.
Quando eu a visitava, ela já havia começado a praticar Vipassana. Nós também costumávamos meditar juntos, mas a prática dela havia diminuído. Eu não suportava vê-los bebendo outra vez. Então lhes disse: “Esta casa é de vocês. Sou apenas seu filho, não posso controlá-los. São donos das próprias vidas e podem agir como quiserem dentro de casa. Mas, para mim, é muito desagradável ficar perto de pessoas que usam intoxicantes, mesmo que sejam meus pais. É especialmente difícil porque vi o que o álcool fez com você, mãe. Portanto, não posso ficar aqui enquanto vocês bebem”.
A separação que tivemos quando me mudei para o Japão e passei tanto tempo sem contato foi muito dolorosa para minha mãe. Ela não queria passar por aquilo de novo. Por isso, acabaram parando de beber durante minhas visitas e perceberam que eram mais felizes sem a bebida. Não era apenas uma coisa pequena: bebiam vinho. Começaram, de novo, com uma taça no jantar; depois passaram a duas. Uma vez, quando voltei de um curso, encontrei sangue no carpete porque algum deles tinha caído sobre uma faca ou algo assim. A televisão continuava ligada. Essas coisas aconteciam.
Eu ficava duas semanas, às vezes talvez um mês, porque viajava continuamente para servir nos cursos. Enquanto estava em casa, eles não bebiam. Assim começaram a perceber claramente como a vida era melhor e como eram mais felizes nos períodos de abstinência do que quando voltavam a beber depois que eu partia.
Com o tempo, passaram a querer que eu ficasse mais, pois minha presença tornava muito mais fácil não beber. Tinham uma boa razão para evitar a bebida: me amavam, queriam que eu estivesse por perto e eu os ajudava muito. Mais tarde, desenvolveram força suficiente para não beber nem mesmo quando eu não estava. Nos últimos anos da vida deles — talvez cinco a oito anos —, acho que não beberam mais. Cuidei deles durante os cinco últimos anos, enquanto se aproximavam da morte.
Enfim, talvez seja mais informação pessoal do que você gostaria de ouvir. Mas, para mim, contar essas coisas tem mais valor do que guardá-las. Talvez um dia você passe por um momento sombrio e se lembre: “Espere, o que aquele homem falou sobre isso?”. Nunca se sabe.
Neel: Obrigado por compartilhar.
O que permanece depois dos cursos
Tim: Sim, não é fácil o que estamos fazendo, o que tentamos fazer. Mas, como eu disse, a experiência que você teve nesses dois cursos é algo que levará consigo. Ela não desaparece. Mesmo que você nunca mais medite um dia sequer, nem mais um minuto na vida, isso o ajudará enormemente de maneiras que ainda não conhece — não apenas pelo resto desta vida, mas também em alguma vida futura.
Você não precisa acreditar em vidas passadas ou anteriores, claro. Precisa acreditar nesta vida. Mas, como físico, talvez consiga perceber que, se nada acontecer depois da morte, então há algo de errado ou incompleto nas leis da física como as conhecemos hoje. Existe algum tipo de energia envolvida aqui, não existe?
Neel: Não acredito que as leis da física sejam uma descrição completa do mundo.
Tim: As leis da física como as conhecemos hoje.
Neel: Como as conhecemos, sim.
Tim: Pois é. Chame-as de leis da natureza. Elas são perfeitas; são o que são. Não se trata de algo aleatório nem de caos. Há uma lei de causa e efeito em funcionamento. Pela física, você deve conhecer um pouco disso, certo? Essas leis são reais.
Então não desperdice isso. Voltamos às leis do carma, de causa e efeito. Há alguma razão para você ter chegado a um curso. Há alguma razão para ter nascido numa época em que esses professores estavam vivos; não foi por acaso. Há alguma razão para eles terem atraído você e para você ter voltado para um segundo curso.
Acho que vi uma estatística certa vez dizendo que apenas cerca de 2% ou 2,5% das pessoas que fazem um curso voltam para um segundo. E a porcentagem das que continuam praticando Vipassana pelo resto da vida é ainda menor, porque é difícil. Mas isso também acontece por alguma razão.
Desejo-lhe tudo de bom. Espero encontrá-lo novamente em algum curso. Já me aconteceu muitas vezes. Costumava ir muito à Índia antes da pandemia, e também quando morava no Japão. Fui à Índia mais de quinze vezes, já nem lembro quantas. Costumava ir para me sentar em cursos. De que parte da Índia você é?
Neel: Eu? Sou de Kolkata, ou Calcutá.
Cursos de meditação na Índia
Tim: Certo, entendi. Você é da Índia. Eu amo a Índia. Meditar na Índia é... Quando começaram a oferecer cursos longos fora da Índia, fiz um dos primeiros cursos de 45 dias em Massachusetts, num centro muito bom. Era a primeira vez que fazia um curso longo fora da Índia. No dia em que pudemos conversar, fui falar com o professor e disse: “Nunca mais farei um curso longo fora da Índia, porque é muito diferente”. Sentar-se para meditar na Índia tem algo especial. É mágico.
No fim, isso não se confirmou: fiz vários cursos longos fora da Índia pela conveniência, mas estou tentando voltar para fazer outro curso longo lá. Eu o incentivo a ir a algum centro. Vá a Bodh Gaya, que não fica tão longe de Kolkata. Vá a Dhamma Giri, um centro muito confortável. Ou a Jaipur. Faça algum dia um curso de dez dias na Índia; será uma experiência completamente diferente daquela que teve no Texas.
Neel: Vou guardar a sugestão.
Tim: Sim, é maravilhoso. Na primeira vez em que fui à Índia, viajei para fazer um curso de 30 dias. Assim que desci do avião e comecei a andar pelo aeroporto, pude sentir que havia alguma coisa ali, algo diferente. Primeiro pensei: “É só imaginação; estou aqui animado para meu primeiro curso de 30 dias”. Mas não: em todas as viagens seguintes, voltava a ficar claro para mim desde o instante em que aterrissava. Não importa onde eu esteja no país: é a terra do Buda.
Dizem que quatro Budas surgiram na Índia. E, segundo uma previsão, o quinto, que surgiria num futuro distante, também viria dessa região. Todos teriam surgido aproximadamente na mesma área: norte da Índia e Nepal. Isso não aconteceu por acaso. Há alguma razão para isso.
Também ouvi dizer que somente em determinadas latitudes do mundo podemos experimentar o nibbana. Há algo mais profundo acontecendo ali de que não temos consciência. Existe alguma coisa especial na Índia, que é seu país de origem.
Neel: Sim. Há algo um pouco curioso nisso. Quando eu crescia na Índia, era ateu desde muito jovem. Cresci num estado governado por comunistas, onde ser ateu ou não religioso era bastante comum. Eu não tinha muito interesse na religiosidade hindu nem em nada disso. Continuava ateu convicto quando fui para os Estados Unidos. Na pós-graduação, por várias razões, comecei a me aproximar da espiritualidade, mas ainda pensava: “Não quero me envolver com religião”.
Então li num livro, pela primeira vez, as instruções para a meditação Anapana. Foi assim que comecei a me envolver cada vez mais com a prática. Percebi que, embora fosse nominalmente hindu na Índia, me identificava mais com os ensinamentos budistas. Quando me aprofundei um pouco, li sobre a história do budismo e pensei: “Será uma coincidência completa que o Buda tenha nascido e vivido numa região não tão distante de onde sou?”.
Talvez seja só coincidência eu me identificar com seus ensinamentos. Mas tenho outra hipótese: eles deixam uma espécie de reflexo ou eco no imaginário cultural. Mesmo sem ter crescido explicitamente com ensinamentos budistas, algo deles pode permanecer na forma como a vida e as relações se organizam, nos valores e nas perspectivas das pessoas. Absorvi tudo isso enquanto crescia. Talvez, então, não seja tão surpreendente eu encontrar um ensinamento como este e pensar: “Sim, isso faz todo o sentido para mim”.
A prática e seu efeito nos outros
Tim: Estou sentindo sensações agradáveis pelo corpo inteiro enquanto você me diz isso. É por isso que estou passando um tempo extra conversando com você: desenvolvi aquela sensibilidade sobre a qual você perguntou, inclusive em relação às outras pessoas.
Algumas pessoas querem abandonar o curso. Quando comecei a atuar como professor assistente, tentava segurá-las, argumentava com elas e assim por diante. Mas, com o tempo, aprendi que, em certos casos, simplesmente não chegou a hora daquela pessoa. Ela ainda não tem forças para continuar. Em outros casos, percebo que há algo naquela pessoa que pode ajudá-la a superar a dificuldade. Converso com ela, ela acaba ficando e depois me agradece.
Há também pessoas nas quais reconheço algo: embora estejam fazendo o primeiro curso, tenho a sensação de que não é a primeira vez que praticam Vipassana. Isso não é motivo para vaidade. Deve servir como lembrete de que é um presente — talvez fruto do meu próprio carma — e que não deve ser desperdiçado nem ignorado. Só tem valor se eu o usar para ajudar outras pessoas.
E, se continuarmos nesse caminho... Era isso que eu estava começando a lhe dizer, antes de me perder um pouco na história da família. Quando participo dos cursos longos e começo a sofrer, a reclamar, ou quando a mente faz o que costuma fazer, lembro que me sento naquele assento elevado como professor assistente. Lembro das coisas que já disse aos alunos. Isso sempre me faz bem: “Ei, amigo, ninguém gosta de um hipócrita”.
Lembro do que disse a este ou àquele estudante e começo a rir de mim mesmo: “Muito bem, volte ao trabalho. Volte ao que deveria estar fazendo. Pratique Vipassana”. Minha motivação nesses cursos também é me tornar um professor assistente melhor. A única maneira de fazer isso é percorrer o caminho eu mesmo e trabalhar no meu próprio processo de purificação, para poder ajudar mais pessoas nos cursos e fora deles.
Isso fez uma diferença enorme para minha família. Todos na família, inclusive os filhos deles, fizeram pelo menos um curso. As mudanças que fazemos em nós têm um efeito de ondas, como uma pedra jogada num lago. Primeiro alcançam as pessoas mais próximas — a família imediata, os parentes — e depois as pessoas com quem trabalhamos. Se queremos mudar o mundo, qual é o melhor lugar para começar? E quem é a única pessoa que realmente posso mudar?
Quero lhe fazer uma proposta: se você fizer um curso de 45 dias na Índia, irei até lá. Posso fazer o curso com você ou chegar quando terminar, e então visitaremos juntos os quatro lugares sagrados.
Neel: Certo. Uau. Vou guardar isso. Um curso de 45 dias... Ainda não o fiz. Também não visitei aqueles lugares. É um grande objetivo da minha vida. O próprio Buda disse que, antes de morrer, as pessoas deveriam visitar os locais sagrados: onde ele nasceu, onde alcançou a iluminação, onde começou a girar a roda do Dhamma e onde atingiu o parinibbana, quando deu seu último suspiro em sua última vida.
Quero ir até lá e meditar. Estive apenas em Bodh Gaya. E fica muito claro que há muita coisa acontecendo ali...
Tim: Sim, sim. Eu nunca estive lá, mas gostaria de ir. Dhamma Giri também impressiona. Era onde Goenkaji costumava fazer seus cursos individuais com a esposa, Mataji. Meditar com os dois sempre foi uma experiência muito poderosa.
Despedida
Neel: Certo, já tomei tempo demais de você. Agora sou eu quem está falando sem parar. Muito obrigado. Espero que nossos caminhos se cruzem novamente no Dhamma.
Tim: Também espero. E, se surgir outra pergunta urgente que fique rondando sua cabeça, sente-se primeiro num curso e veja se consegue encontrar a resposta por conta própria. Essas são sempre as melhores respostas. Mas, se não conseguir, ficarei feliz em conversar com você.
Neel: Muito obrigado. Obrigado mesmo, Tim. Gosto da sua camiseta.
Tim: Ah, sim. Obrigado.
Obrigado por acompanharem Tim e a mim hoje no The Room of Lives.




