Relatos de religiosos católicos sobre Curso de 10 dias de Vipassana

Por
Paulo Behar
—
26 de setembro de 2026
Tempo de leitura:
9
minutos

Relatos de religiosos católicos sobre o que experimentaram em Curso de 10 dias de Vipassana

Descrição de relatos

Fonte: https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf

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Os Cursos de Vipassana como ensinada por S. N. Goenka não são sectários. Há participantes ateus e religiosos sobretudo na Índia. Os testemunhos mais consistentes vêm de instituições de formação cristã indianas e de um arquivo ligado à tradição Vipassana; portanto, são relatos de participantes, não estudos independentes nem uma posição oficial da Igreja Católica.

Há relatos em primeira pessoa de padres, jesuítas e religiosos católicos que praticaram vipassana. Para a tradição de S. N. Goenka, os dois testemunhos mais diretamente pertinentes são os de Peter Lourdes, que fez um curso com o próprio Goenka, e Peter D’Souza, que se tornou professor assistente da técnica.

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Relatos sobre Cursos de Vipassana como ensinada por S. N. Goenka

  • Pe. Peter Lourdes: relata que participou, em fevereiro de 1986, de um curso de dez dias conduzido por Goenka em Igatpuri, na Índia, junto com outros padres, irmãos e irmãs. Diz que continuou a prática após o retiro. Sua reflexão não apaga a tensão teológica: ele afirma que a teoria da técnica «não se encaixa, em geral», em sua visão teológica católica, embora veja na experiência um caminho para objetivos da espiritualidade mística cristã. O texto está reproduzido em inglês em “A Catholic Priest on Vipassana”; trata-se de uma republicação em fórum, não de uma publicação institucional.groups.google
  • Pe. Peter D’Souza: sacerdote da Sociedade Missionária de São Francisco Xavier, conta que seu primeiro curso, em setembro de 1990, foi árduo no começo. Mais tarde tornou-se professor assistente e relata que cursos passaram a integrar a formação de seu seminário e noviciado. Na entrevista completa, ele reconhece que há questões teóricas entre as tradições que exigem estudo; sua avaliação favorável é um testemunho pessoal, não um pronunciamento da Igreja.insightmyanmar

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1. Padre Daniel J. O’Hanlon, SJ

O jesuíta irlandês Daniel J. O’Hanlon fez um curso de dez dias com S. N. Goenka em dezembro de 1973, em Varanasi, durante uma temporada de estudos na Índia. O curso envolvia cerca de doze horas diárias de prática, centrada na observação das sensações corporais sem apego nem aversão. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf) Ele afirmou que a experiência não lhe pareceu incompatível com sua vida anterior de oração e meditação cristã. Mais tarde, ao ler _A Nuvem do Não-Saber_ e São João da Cruz, reconheceu paralelos entre a atenção silenciosa da Vipassana e formas cristãs de contemplação sem palavras. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf)

O’Hanlon destacou duas descobertas:

- era possível avançar para uma oração além das palavras e conceitos sem começar necessariamente por palavras ou conceitos;

- a compaixão, o amor, a paciência e a empatia podiam emergir da atenção silenciosa, sem serem inicialmente produzidos por esforço deliberado.

Ele relatou também um efeito prático: depois do retiro, reagiu com humor e cordialidade a uma situação que provavelmente teria provocado irritação. Para ele, a meditação havia produzido uma mudança observável na maneira de responder às circunstâncias. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf)

2. Padre Peter Lourdes

O padre Peter Lourdes, sacerdote católico e psicólogo ligado ao National Vocation Service Centre, em Pune, participou de um curso de dez dias em fevereiro de 1986, em Igatpuri, acompanhado por outros padres, irmãos religiosos e religiosas. Ele continuou praticando com um grupo de sacerdotes e religiosas sob sua direção espiritual. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf). Seu relato é particularmente interessante porque ele não escondeu a tensão entre as tradições. Disse que a teoria da Vipassana não se ajustava inteiramente ao seu universo teológico católico, mas considerava que a experiência meditativa o aproximava dos místicos cristãos. Para ele, Vipassana oferecia um método simples e claro para uma dimensão contemplativa que, em sua avaliação, muitas vezes havia ficado obscurecida pelo predomínio da teologia e das formas institucionais de religião. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf). A formulação dele é forte: viu Vipassana como uma maneira de alcançar objetivos da espiritualidade mística católica, embora reconhecesse que não se tratava de uma equivalência doutrinal entre Cristianismo e Budismo.

3. Padre Desmond D’Souza

Desmond D’Souza, sacerdote redentorista e experiente orientador de retiros, descreveu a Vipassana como uma espécie de “segundo noviciado”. A diferença, para ele, era que a disciplina do noviciado religioso costuma ser mais externa e institucional, enquanto no retiro a disciplina — especialmente o silêncio — precisava ser interiorizada. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf). Ele considerou decisiva a observação de como gostos e aversões se transformam em desejo e repulsa. Também descreveu  Vipassana como uma passagem de um sistema teórico e dedutivo para uma aprendizagem experiencial: durante o curso, o participante não se apoia em livros, Bíblia, rosário, missa ou oração, mas observa diretamente o corpo e a mente. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf). Depois do retiro, D’Souza afirmou ter adquirido uma nova compreensão do “Cristo cósmico”, da espiritualidade da criação e de certos temas da teologia contemporânea. Esse é um exemplo de integração interpretativa cristã posterior; não significa que esses conceitos façam parte da técnica ensinada por Goenka.

4. Padre Anthony de Mello, SJ

Anthony de Mello, jesuíta indiano e conhecido diretor de retiros, fez um retiro com Goenka e incorporou elementos de mindfulness budista na sua obra _Sadhana: Um Caminho para Deus_. O testemunho sobre essa influência foi registrado pelo jesuíta Michael Barnes, que conviveu com de Mello e relata que a prática orientadora de _Sadhana_ veio, em parte, da Vipassana Theravada. [thinkingfaith](https://www.thinkingfaith.org/articles/anthony-de-mello-sj). De Mello utilizava atenção aos sons, à respiração e às sensações corporais como preparação para a oração. No entanto, ele não apresentava essas práticas como um substituto do Cristianismo: seu objetivo era tornar o praticante mais sensível à presença de Cristo e à ação de Deus na experiência cotidiana. [thinkingfaith](https://www.thinkingfaith.org/articles/anthony-de-mello-sj). Essa formulação aproxima-se bastante de uma possível ponte com a oração mental capuchinha: a atenção corporal e o silêncio funcionariam como preparação; a oração cristã acrescentaria a escuta da Palavra, a contemplação de Cristo e a resposta amorosa a Deus.

5. Padre Peter D’Souza, sacerdote e professor de Vipassana

Outro sacerdote com o mesmo sobrenome, Peter D’Souza, da Missionary Society of St. Francis Xavier, fez seu primeiro curso em setembro de 1990. Descreveu o início como difícil, mas afirmou que a experiência terminou de maneira profundamente positiva. Posteriormente, tornou-se professor assistente de Vipassana e relata que a prática passou a fazer parte da formação de seminaristas e noviços em sua instituição desde 1996. [insightmyanmar](https://insightmyanmar.org/burmadhammablog/2023/7/26/an-interview-with-vipassana-teacher-father-peter-dsouza)

Ele identifica três elementos comuns entre Vipassana e muitas tradições religiosas:

- moralidade;

- concentração;

- sabedoria.

Ao mesmo tempo, reconhece que existem diferenças teóricas importantes entre as visões judaico-cristã e as originárias de Buda, particularmente em temas como salvação, renascimento e compreensão da pessoa. Sua posição é pragmática: não se deve negar as diferenças, mas também não é necessário concluir que toda experiência meditativa ensinada por Buda seja incompatível com a vida cristã. [insightmyanmar](https://insightmyanmar.org/burmadhammablog/2023/7/26/an-interview-with-vipassana-teacher-father-peter-dsouza)

6. Relatos de religiosas e seminaristas

O mesmo conjunto de testemunhos reúne experiências de religiosas e formandos:

- Irmã Joyce descreveu o retiro como uma experiência intensa de purificação e paz interior, além de um contato mais profundo com a dimensão mística de si mesma.

- Padre Emanuel, diretor espiritual de um seminário, relacionou a experiência da impermanência com textos do Antigo Testamento e com Santa Teresa de Ávila.

- Irmã Rosalyn relatou que conseguiu permanecer mais no presente e que, apesar de não haver missa, rosário ou oração formal durante o curso, experimentou algo que interpretou cristianamente como “o reino de Deus dentro”.

- Padre Sekhar associou a observação das sensações à imagem evangélica de “tomar a cruz” e descreveu o desenvolvimento de metta — bondade amorosa — como um momento profundamente tocante.

- Irmã Zacharias afirmou que sua concentração na oração e na missa melhorou depois do curso, porque a divagação e a reatividade mental haviam diminuído.

- Padre Arul, carmelita, relatou que passou a lidar com os seminaristas de modo mais equânime. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf)

Esses testemunhos mostram que alguns participantes interpretaram Vipassana como uma disciplina psicológica e contemplativa; outros a integraram diretamente à sua linguagem cristã de graça, cruz, Reino de Deus e purificação.

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Um padrão comum nos relatos

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Os religiosos geralmente relatam quatro efeitos:

1. Maior percepção da reatividade: reconhecer desejo, irritação, medo e aversão antes de agir.

2. Mais estabilidade interior: menor dispersão e maior capacidade de permanecer no presente.

3. Aprofundamento da oração cristã: especialmente concentração, silêncio e sensibilidade à presença de Deus.

4. Melhoria no serviço pastoral: mais paciência, equanimidade e compaixão no relacionamento com seminaristas, pacientes, alunos ou comunidades.

Mas há também uma ressalva essencial: durante o curso de Goenka, o praticante não faz oração cristã, não lê a Bíblia, não reza o rosário e não cultiva explicitamente a relação com Deus. O método formal trabalha com respiração, sensações corporais, impermanência e equanimidade. D’Souza descreve justamente esse despojamento de referências religiosas como parte do impacto do retiro. [bibliotecavipassana](https://www.bibliotecavipassana.org/uploads/content/Esperienza%20di%20sacerdoti%20e%20suore%20cattoliche797.pdf)

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Relatos de Jesuítas em outras abordagens

  • Pe. Toshihiro Yanagida, SJ: relata que, após dez dias de vipassana na Índia, desenvolveu no Japão uma «vipassana cristã» integrada aos Exercícios Espirituais inacianos. Descreve atenção às sensações, emoções e pensamentos como auxílio ao desprendimento interior. É um texto publicado pela Companhia de Jesus, mas sua adaptação cristã não deve ser confundida com um curso de Goenka.jesuits
  • Advent Novianto, SJ: então escolástico jesuíta, descreve sete dias de vipassana em um mosteiro budista tailandês. Relata que a prática o ajudou a ganhar foco e sensibilidade e, em sua leitura cristã, a relacionar-se com Deus. Também não era um retiro da linhagem de Goenka.jcapsj

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