Eu caio e me levanto. Eu caio e me levanto. Eu caio e me levanto.

Por
Paulo Behar
—
11 de outubro de 2026
Tempo de leitura:
5
minutos

Eu caio e me levanto

Considerações sobre uma música a partir de conversa com um amigo

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Ao conversar com um amigo (Kalyanamitta), entre outras coisas, falamos sobre a realidade de cair e se levantar durante a Caminhada. Comentamos sobre essa condição humana com devoção e com realidade, ao mesmo tempo com aquele humor tipo rir de si mesmo, que relativiza o problema. Sabe como é, uma conversa entre bons amigos é acompanhada de umas boas risadas e, nesse clima, lembrei e falei  que conheço uma música que repete: "Eu caio e e me levanto. Caio e me levanto. Caio e me levanto."

Resolvi então estudar um pouco sobre essa questão. Primeiro pesquisei um pouco sobre a música na internet (apresentada nesse artigo) e depois pesquisei sobre o assunto na literatura Theravada (artigo seguinte, de título: Cair e se levantar durante o Caminho Nobre.

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A música

הדרך ארוכה ומפותלת

אני נופל וקם, נופל וקם, נופל וקם

אף פעם לא אפסיק ללכת

אני נופל וקם, נופל וקם

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Tradução:

O caminho é longo e sinuoso

Eu caio e levanto, caio e levanto, caio e levanto

Eu nunca vou parar de caminhar

Eu caio e levanto, caio e levanto, caio e levanto

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Link para a música:

https://open.spotify.com/intl-pt/track/6eyWTvNuLnJqfhuQNEuRaJ?si=2f65c83e247b4790

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A resiliência descrita nesse hip-hop israelense "Nofel ve Kam" (נופל וקם - Caio e Levanto), da banda Shabak Samech (שב"ק ס'), mostra como a sabedoria popular e de músicos percebe experiencialmente o mesmo fenômeno humano descrito na prática do Nobre Caminho Óctuplo como descrito no cânone: a inevitabilidade das quedas e a necessidade de continuar caminhando.

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A natureza da caminhada (הדרך - HaDerech)

Na tradição Theravada, o Caminho (Magga) é um processo de purificação gradual (anupubba sikkhā). A jornada é mapeada clinicamente através de Oito Passos que visam o fim do sofrimento através do desapego. O ritmo é constante, e o praticante avança desenvolvendo visão profunda e tranquilidade.

Na música "Nofel ve Kam", a jornada é imediatamente estabelecida como árdua e cheia de atrito físico e emocional. A letra abre com a famosa frase "Ha'derech aruka u'mefutelet" (הדרך ארוכה ומפותלת - A estrada é longa e sinuosa). Enquanto o Theravada vê as dificuldades como formações mentais a serem observadas, a canção israelense descreve a estrada como uma paisagem quase física e hostil — ecoando as longas subidas pelas montanhas até Jerusalém ou as trilhas secas e implacáveis ao redor da cratera de Mitzpe Ramon, onde o viajante precisa lutar contra a gravidade e a exaustão.

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A mecânica da queda (נופל - Nofel)

A visão Theravada, como visto nas instruções a Rahula, trata a "queda" como um lapso na Atenção Plena (Sati). Você cai porque a mente foi momentaneamente dominada por cobiça, aversão ou ignorância. O erro é uma variável esperada e técnica.

Para o eu-lírico de Shabak Samech, a queda é o impacto bruto contra as forças do mundo moderno, as decepções e a oposição externa. A música diz "Ani nofel ve kam, nofel ve kam" (אני נופל וקם, נופל וקם - Eu caio e levanto, caio e levanto). O uso do presente contínuo no hebraico moderno enfatiza que cair não é um evento isolado no passado a ser purificado, mas a condição rítmica da própria vida. Cair faz parte do compasso de caminhar.

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O motor da recuperação: esforço correto versus fogo interno (האש - Ha'Esh)

A diferença mais marcante entre as duas filosofias está na temperatura da recuperação.

O Caminho Óctuplo exige o Esforço Correto (Samma Vayama), que é descrito como algo perfeitamente balanceado, como afinar a corda de um alaúde. É uma recuperação "fria" e desapegada. Se você cai, você não deve gerar aversão contra si mesmo. Você aplica o esforço para abandonar o estado negativo e cultivar o positivo, soltando a narrativa do ego.

Em Nofel ve Kam, a recuperação é impulsionada por uma força quente, apaixonada e intensamente apegada ao objetivo. A resiliência vem das entranhas. A letra declara: "Yesh bi ahava ve'hi tenatzeach" (יש בי אהבה והיא תנצח - Há amor em mim e ele vencerá). O cantor se levanta porque possui um fogo interno, uma teimosia visceral característica da mentalidade de sobrevivência local, recusando-se a ser derrotado pelas circunstâncias. Não há o desapego budista aqui; há a afirmação enfática da própria vontade e identidade.

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A relação com a culpa e a persistência

Ambas as abordagens rejeitam a paralisia da culpa, mas por motivos diferentes:

Na tradição Theravada, a culpa (kukkucca) é rejeitada porque é inútil e drena a energia necessária para a observação clara. O passado é impermanente; foca-se apenas na contenção futura.

Na música, a dúvida e a autocomiseração são rejeitadas porque o tempo está correndo e o objetivo final exige ação ininterrupta. Não há tempo para chorar sobre o asfalto. A força vem de olhar para o futuro e continuar empurrando, uma atitude perfeitamente encapsulada no ritmo marcado e urgente do hip-hop moderno.

Ao unir as duas perspectivas, percebe-se que enquanto o Nobre Caminho Óctuplo fornece o método cirúrgico e pacífico para corrigir a direção da mente, a energia de "Nofel ve Kam" ilustra a força motriz necessária para colocar o pé na frente do outro nas horas de maior exaustão humana.

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